Padrão Xangai

O fato de cinco ou seis universidades brasileiras – como USP, Unicamp, Unesp, UFRJ, UFRS e UFMG – aparecerem em rankings internacionais (Universidade de Xangai, Times Higher Education, revista Nature, etc.) entre as 500 ou 600 mais importantes do mundo tem sido comemorado com entusiasmo nos meios acadêmicos do País, em especial, pelo establishment universitário e por dirigentes de agências de fomento. Estranho paradoxo: o que deveria ser motivo de demérito é visto como sinal de pujança e louvor. Situação inexplicável em se tratando de universidades de um país que tem uma das dez maiores economias industriais do mundo.

José Antonio Segatto, O Estado de S. Paulo

18 Junho 2015 | 03h00

Buscando responder às exigências de ascensão nos rankings, o establishment das universidades públicas tem procurado adotar e implementar um padrão de produção e reprodução, gestão e difusão científicas, disseminado internacionalmente nas últimas décadas a partir de universidades americanas e, em seguida, reciclado no Oriente – Xangai, Hong Kong, Jacarta, Seul, Taipé, etc. Padrão esse – inspirado em preceitos de políticas neoliberais que bafejaram a Europa e os Estados Unidos nas décadas de 1980-1990 – que tem por fundamento a mercantilização do trabalho intelectual e científico, a competitividade, a produtividade, o empreendedorismo, a objetividade, a racionalidade instrumental e a internacionalização, dentre outros elementos.

Esse padrão tem sido incorporado por meio de um movimento lento e gradual, muitas vezes quase imperceptível. De um lado, como contraponto ao corporativismo e à inépcia produtiva acadêmica e científica de áreas numericamente consideráveis do corpo docente; de outro, como reação do conservadorismo ascendente às teorias críticas e de caráter público, reputadas como improfícuas, especulativas e ideológicas. De certo modo, pode-se dizer que isso marca o desfecho de um processo longo e incompleto de americanização das universidades brasileiras, iniciado no final dos anos 1960.

As diretrizes e os valores dessa política acadêmica – que denominamos “padrão Xangai” – passaram a orientar e determinar concepções e práticas científicas em sentido lato, impostas e disseminadas tanto por órgãos governamentais como por agências privadas. Os preceitos pedagógicos e de investigação, de formulação e geração de ensino e pesquisa foram contaminados por concepções e interesses extracientíficos e estranhos ao mundo universitário.

Consoante com o “padrão Xangai”, o trabalho intelectual e científico passou a ser orientado e avaliado pela lógica da maximização de resultados, pelos índices de desempenho (performance), pelos indicadores bibliométricos de produtividade e de difusão (impacto). A clássica tríade em que se assentou tradicionalmente o trabalho acadêmico – ensino, pesquisa e ex0tensão – foi sendo sorrateiramente substituída pelo quarteto competitividade, produtividade, empreendedorismo e internacionalização.

Tendo por base esses parâmetros, as condições de produção, transmissão e aplicação dos resultados do trabalho científico sofreram inflexões consideráveis. Entre elas, podem-se citar: 1) a mercantilização das atividades científicas e o intento de transformar o pesquisador em empreendedor (businessman) com a criação de um mercado de patentes e copyrights; 2) a valorização da rentabilidade quantitativa, aferida por critérios que mensuram a produtividade e desempenho (elaborados pela cienciometria) por meio, por exemplo, de planilhas de controle de resultados e de atividades, que contabilizam a eficiência performática dos docentes/pesquisadores; 3) a relevância conferida à publicação de artigos breves e coletivos (um verdadeiro milagre da multiplicação de autoria) em revistas, coletâneas e anais de congressos, em detrimento de livros ou pesquisas de mais largo fôlego ou maturação; 4) a adoção do inglês como a língua “oficial” de produção e difusão científica com significado de universalização, ganhando prestígio a publicação de artigos em inglês tanto em revistas nacionais como internacionais (inclusive paga); 5) o incentivo à captação de recursos por meio de projetos de pesquisa e bolsas, financiados por agências públicas ou privadas externas à universidade – o valor de uma pesquisa, muitas vezes, é medido pelo volume de recursos obtidos; 6) indução à hiperespecialização e à investigação de micro-objetos e fenômenos capazes de ser examinados em tempo reduzido, dadas as exigências de produtividade – instaurou-se a compartimentalização disciplinar, o minimalismo explicativo, o efêmero e descartável.

A implementação desse padrão tem várias implicações. Passou-se a requerer volumes colossais de recursos para a pesquisa, oriundos quase que exclusivamente do Estado por meio de agências de fomento (Capes, CNPq, Finep, Fapesp e outras). Houve, sem dúvida, um aumento exponencial da produção científica: milhares de teses, dissertações, relatórios, artigos, anais, coletâneas, etc., são elaborados e/ou publicados anualmente. Calcula-se que sejam editadas cerca de 5 mil revistas científicas no Brasil. A questão que se coloca é se esse extraordinário aumento de investimento e de produtividade gerou o devido retorno em termos de inovação e relevância científica. Segundo avaliação da revista Nature 2014, o desempenho qualitativo é inversamente proporcional aos vultosos gastos e ao abundante quantum gerado.

Essa constatação da Nature pode ser compreendida pelo caráter intrínseco a esse padrão e que se vem tornando preponderante nas universidades brasileiras. E também pelo fato de orientar a produção científica e intelectual pela lógica da autorreprodução de nichos corporativos, voltada não para os interesses da sociedade, mas para os de coletividades ou confrarias de interesses e afinidades particulares. 

Resta indagar se é esse padrão científico que queremos para nossas universidades.

*José Antonio Segatto é professir titular de sociologia da UNESP

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