Página virada

Bolsonaro se acautele, as legiões petistas vão pelejar pelo poder que o povo lhes arrebatou

*ALMIR PAZZIANOTTO PINTO, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2018 | 03h00

Acabamos de participar de disputa eleitoral encerrada com a derrota do radicalismo petista. Mais de 147 milhões se manifestaram em clima de franca liberdade. Por expressiva maioria o País aprovou a deposição de Dilma Rousseff, como ré de crime de responsabilidade, e apoiou a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sentenciado por corrupção passiva e ativa e recolhido à prisão em Curitiba. Foi a derradeira página do último capítulo da novela cujo fim só deverá ser conhecido dentro de quatro anos. Os grandes embates estão por acontecer.

A campanha adquiriu características de plebiscito nacional. A disputa ultrapassou os limites da Presidência da República. No flanco direito, Jair Bolsonaro procurou ser visto como representante do bem, da ordem, da legalidade; alguém, enfim, capaz de retirar o Brasil do purgatório. Na extremidade esquerda, Fernando Haddad foi apresentado como o político apto a cumprir a pesada tarefa de recuperar o Partido dos Trabalhadores (PT), tendo como meta remir Lula da cela onde cumpre pena.

Ambos os perfis não correspondiam à realidade. Jair Bolsonaro não deve alimentar a pretensão de ser o estadista dotado de poderes excepcionais que lhe permitam desagravar, com a rapidez desejada, prejuízos causados durante 13 anos e meio de petismo. Fernando Haddad, por outro lado, não estava à altura da tarefa que lhe foi entregue. Não nos esqueçamos do minguado resultado alcançado quando, há dois anos, perdeu a disputa pela reeleição como prefeito de São Paulo. Tentou, mas não conseguiu desempenhar o papel reservado a Lula, com resultados superiores, contudo, aos esperados.

Não surpreendeu a derrota do PT. Era inevitável. Para surpresa geral, entretanto, a votação superou a casa dos 47 milhões, ou 44,8% dos votos válidos. Como entendê-los após a cassação de Dilma, a condenação de Lula e de integrantes da cúpula do PT por desvios de dinheiro e crimes de corrupção ativa e passiva, cometidos com a cumplicidade de grandes empresários? É a pergunta que devemos fazer. 

Reputo impossível que alguém dotado de razoável equilíbrio ponha em dúvida a idoneidade de sentenças de primeiro grau, confirmadas em segunda instância, em ações penais que obedeceram aos princípios constitucionais do devido processo legal e do amplo direito de defesa. Tomada por sentimento de perplexidade, a Nação observou Fernando Haddad alcançar o segundo turno, enquanto candidatos com apreciável currículo e boa reputação eram barrados no primeiro. 

A elevada concentração de votos nas camadas pobres das Regiões Norte e Nordeste sugere forte influência de programas assistencialistas e do pagamento de Bolsa Família àqueles que nunca antes haviam conhecido a cédula de R$ 100. Li em algum lugar acerca da importância da memória do bolso na escolha do candidato e ouvi de alguém a respeito da inutilidade de argumentar, com a Constituição nas mãos, sobre democracia, honestidade, igualdade de direitos para quem está desempregado e cuja família passa necessidades.

Não são esses, porém, os aspectos mais preocupantes no sectarismo lulista. Não me surpreende, também, a presença do PT nos meios artísticos ou entre intelectuais de esquerda. Exige, todavia, particular atenção a crescente onda lulista em meio a estudantes de classe média alta nos cursos de nível médio e universitários, admiradores de Che Guevara. O lulismo parece-me carecedor de ideias consistentes e de bases doutrinárias. Tem, entretanto, distante parentesco com o marxismo-leninista. Ignora o que se passou com a extinta União Soviética, a dissolução do bloco comunista, o destino de Stalin, o fracasso da Alemanha Oriental, as ditaduras dos irmãos Castro, de Evo Morales, de Hugo Chávez, de Nicolás Maduro, a violência e a corrupção presentes em governos africanos admirados por Lula e Dilma. 

Seria consequência da indignação provocada pelo fracasso de políticos surgidos durante o regime militar, os quais, nestes 30 anos de crise, espalharam desconfiança e decepção entre os jovens? Seria forma de protestar contra a onda recente de corrupção? 

Convivi com Lula desde o início da década de 1970, quando comecei a trabalhar como advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Defendi a entidade nas históricas greves de 1978, 1979, 1980, 1982. É indesmentível que a vida sindical passou por radical transformação sob a sua liderança. Após ter o mandato cassado em abril de 1980 por decisão arbitrária do Ministério do Trabalho, Lula não voltou ao emprego na Villares, onde teria breve período de estabilidade. Deixou de ser operário para enveredar pela política. Fundou o Partido dos Trabalhadores e a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Como escrevi anteriormente, a 2.ª edição do Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (DHBB), publicada em 2001 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), traz o verbete Lula no Volume III sem registros desabonadores (páginas 3.330-3.336). O que aconteceu nos anos que se seguiram? Essa é a pergunta que repetidamente ouço. Não me sinto em condições de responder. Aprendi, porém, com a vida, que cobiça é doença contagiosa, contra a qual muitos não conseguem proteger-se.

Com a experiência acumulada em anos de advocacia e de integrante do Tribunal Superior do Trabalho, posso afirmar que condenações em raríssimos casos surgirão do nada. Para belicosas legiões petistas, todavia, Lula é inatacável. Jair Bolsonaro que se acautele. Alimentadas pelas chamas dessa crença, persistirão pelejando com o objetivo de reaver, até 2022, o poder que o povo lhes arrebatou.

*ADVOGADO, FOI MINISTRO DO TRABALHO E PRESIDENTE DO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO

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