Panes no transporte de massa

O sistema de transporte de massa na região metropolitana de São Paulo chegou a um ponto de exaustão, como se depreende das frequentes panes que tem sofrido. A mais recente ocorreu na última quarta-feira, dia 14, em quatro linhas da Cia. Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e do Metrô, afetando cerca de 200 mil pessoas no horário de pico. Longas filas se formaram diante das estações, tornando-as, em muitos casos, inacessíveis e fazendo com que milhares de usuários chegassem atrasados ao trabalho. Muitas pessoas que deixaram de lado os seus automóveis para usar o Metrô tiveram de desistir desse meio de transporte, cuja imagem certamente saiu desgastada.

O Estado de S.Paulo

17 Março 2012 | 03h07

Pode-se dizer que o sistema de linhas do Metrô e a sua conexão com os trens da CPTM tiveram sucesso de público em São Paulo. Mas esse sucesso passou rapidamente a atrair um número cada vez maior de passageiros. Não há melhor exemplo do que a Linha 9-Esmeralda da CPTM, que parte de Grajaú, interliga-se com a Linha 5-Lilás, vinda de Capão Redondo, seguindo até Pinheiros, onde se conecta com o Metrô através da Linha 4-Amarela em direção à região da Av. Paulista e ao centro da cidade. A Linha 9 teve um aumento de 49% no número de passageiros nos últimos 12 meses, transportando hoje 400 mil pessoas por dia. A média diária de passageiros da linha 4, por sua vez, saltou de 11,7 mil/dia em 2010 para 550 mil no ano passado. Essa superlotação é uma das causas das panes, que, segundo a direção do Metrô, ocorrem uma vez por semana - média de que sua direção não pode orgulhar-se.

O problema torna-se ainda mais complexo porque, com a interligação, as panes tendem a ocorrer em sequência. O primeiro problema começou às 5h05 na Linha 9, que, por causa de falha na subestação de energia elétrica, passou a operar apenas em uma das vias. Em consequência, a Linha 5-Lilás reduziu a velocidade e aumentou o tempo de parada nas estações. Por coincidência, a Linha 3-Vermelha sofreu uma pane no sistema de controle às 6h40 e, na Linha 3-Azul, uma composição que operava no sentido Jabaquara apresentou falha de tração às 7h39. À noite, por volta das 20h00, a Linha 9 apresentou nova pane.

As bruxas podiam estar soltas no dia 14, mas há deficiências técnicas que podem e devem ser sanadas rapidamente. Uma delas é o suprimento adequado de energia elétrica. A falta de investimento em subestações de energia é um dos fatores que impedem o aumento de trens nas linhas da CPTM, segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Ferrovias, Éverson Craveiro, citado pela Folha de S.Paulo.

Tudo indica também que há falta de investimentos em manutenção. O Metrô diz que seu orçamento para este ano prevê investimentos no total de R$ 4,9 bilhões - um recorde histórico. A maior parte, no entanto, será destinada à construção de novas linhas e extensão das existentes. Mas houve cortes de 22% nos orçamentos da Linha 1-Azul e de 8,9% da Linha 3-Vermelha. Não se pode afirmar que essas reduções atingiram a área de manutenção, mas deve ser notado que as duas linhas tiveram problemas, como falha de tração e defeito no controle de portas e freios. A grande dificuldade, como disse o prof. Telmo Porto, da Escola Politécnica da USP, é que o aperfeiçoamento do sistema corre paralelo à ampliação da rede metroviária. "É como tomar banho e reformar o banheiro ao mesmo tempo."

O Metrô, apesar dessas falhas, tem conseguido evitar acidentes. Seu diretor de Operações, Wilmar Fratini, assinala que o Metrô realiza 4 mil viagens por dia e que 99% delas são completadas. "Atingir 100% é impossível", diz ele. "É desconfortável esperar antes de entrar na estação, mas é melhor assim do que permitir um acidente."

Sem dúvida, mas terá a região metropolitana de esperar ainda alguns anos para ser dotada de um sistema capaz de cumprir horários? O prof. Jaime Walmann, do Departamento de Planejamento e Operações de Transporte da USP, acredita que sim. A questão central, diz, "é a defasagem brutal entre a necessidade da cidade e a oferta de transporte de massa".

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