Papéis trocados na cena global

Se o presidente Trump cumprir suas promessas e agir como o valentão do bairro, todos perderão

O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2017 | 03h00

Que seria mais normal que uma vigorosa defesa da globalização e da integração de mercados, numa sessão de abertura do Fórum Econômico Mundial, considerado um templo do capitalismo? Nada, exceto por um detalhe. Desta vez, o defensor das grandes bandeiras do liberalismo econômico foi Xi Jinping, presidente da China, um país ainda governado por um Partido Comunista. Decidida há 38 anos, a abertura da economia, com foco no comércio exterior, foi, segundo ele, fundamental para o crescimento chinês nas últimas décadas. Tudo bem, isso pelo menos corresponde ao “novo normal”, diria qualquer pessoa mais ou menos informada sobre economia. Mas também será parte dessa nova normalidade a inversão de papéis, com o presidente eleito dos Estados Unidos ameaçando o mundo com protecionismo e abandono de acordos comerciais?

Esse contraste, quase inimaginável há pouco tempo, é uma das marcas da reunião deste ano do Fórum de Davos. Mas a inversão, nesse caso, é muito mais que um fato pitoresco. É a ampliação de um sinal de alerta. O empresário Donald Trump elegeu-se presidente dos Estados Unidos prometendo, entre outras façanhas, abandonar acordos internacionais, implantar uma política protecionista, desestimular o investimento no exterior e restabelecer indústrias deslocadas ou destruídas por problemas de competitividade.

Ele nunca se perguntou, com seriedade, por que esses problemas se tornaram tão importantes em alguns setores. Preferiu uma resposta populista: pessoas empobreceram porque indústrias foram arrasadas por uma competição desleal ou porque seus administradores preferiram produzir no exterior, abandonando seu país e seus concidadãos.

De fato, muitas empresas têm sido fechadas nos Estados Unidos, e muitas transferiram operações para outros países. Redução de custos, especialização e alocação mais eficiente de capital são respostas apontadas por especialistas. Isso começou bem antes da crise iniciada em 2008. Apesar das fábricas fechadas e do estouro de uma bolha financeira, os Estados Unidos lideram o crescimento, entre as economias avançadas. Seu desemprego, inferior a 5% da força de trabalho, é um dos mais baixos do mundo, postos de trabalho foram abertos em 75 meses consecutivos, mais de seis anos.

Se há aumento da desigualdade, só pode ser consequência de algo diferente do desemprego. Mudança tecnológica e a defasagem de uma parte da força de trabalho são explicações mais plausíveis, sustentadas por análises muito mais finas que as feitas por Trump.

As posições do presidente eleito foram defendidas em Davos por um de seus colaboradores mais importantes, Anthony Scaramucci. Ele rejeitou a acusação de protecionismo, lembrou a colaboração americana para a reconstrução europeia, depois da Segunda Guerra Mundial, e falou sobre como os Estados Unidos ajudaram outros países por meio de acordos comerciais assimétricos. Donald Trump, disse o assessor, apenas defende um comércio mais simétrico e menos danoso às indústrias e aos trabalhadores de seu país.

Mas os fatos são mais prosaicos. O presidente Donald Trump poderá causar danos importantes a outros países, além de ameaçar o sistema internacional de comércio, se adotar o protecionismo, atropelar as normas do mercado e forçar a restauração de certas indústrias. Se fizer isso desconhecendo o desafio real dos custos, da produtividade e da competitividade, acabará prejudicando também seu país, pelo estímulo ao uso ineficiente de recursos.

A economia americana é hoje mais eficiente e mais competitiva do que era há alguns anos. Tem também fundamentos mais firmes, graças à correção, no período Obama, dos desajustes fiscais deixados pelo governo anterior. Isso é bom para os Estados Unidos e para seus parceiros. Se o presidente Trump cumprir suas promessas e agir como o valentão do bairro, todos perderão. O populismo é sempre ruim. Quando se instala na maior potência mundial, pode ser catastrófico.

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