Para além da Wikipédia

A Editora Perspectiva, sob a liderança de Jacó Guinsburg, completou 50 anos em 2015. Gostaria de recordar a data com algumas reflexões sobre o mundo editorial de hoje.

ROBERTO ROMANO*, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2015 | 03h00

Tivemos no século 20 uma revolução nas comunicações com o rádio e a TV. Na internet, esse fato atinge o ápice. As editoras atuais devem publicar textos manipuláveis por leitores que se tornam coautores. Logo chegaremos ao exigido por Blaise Pascal: os livros serão “nossos”, não “meus”. Os textos, os hypertextos, os intertextos, realizam aquela promessa ou ameaça. Se o livro trouxe o pedante – que tudo lia, nada entendia –, a “era digital” revela o seu pedantismo. Renasce o culto do escrito na política, religião, academias. Os libelos modernos, samizdates e mimeógrafos postos contra ditaduras foram trocados pelo Facebook.

A simultaneidade entre redatores chega à perfeição no Whatsapp. Entre semelhantes tipos de escritura e os tratados, os decretos, os livros santos, há uma diferença de forma que ruma para a coincidência. Dogmas são veiculados na internet e arrefecem o pensamento e a autonomia humana. Fanáticos seguem a letra e apavoram quem recusa suas certezas. A mazela traz prejuízos econômicos. No entanto, os desastres do espírito devem ser ainda mais temidos. Dogmatismo e saber pedante se uniram contra o pensamento crítico, a internet potenciou o fenômeno.

Com o pedantismo do livro muitos compravam o impresso – alguns adquiriam volumes aos metros, como peças decorativas –, poucos o conseguiam “fixar”, transformá-lo em tendência intelectual. O número dos que hoje usam livros, e pouco os fixam em matéria científica, técnica, humanística, mantém-se constante. Mas as edições de divulgação ou mesmo o aparato exibicionista de ciência, importantes no século 20, cedem o passo aos escritos de autoajuda, romances levemente pornográficos, biografias, etc. Em 2013, na Europa, os números de edições eram os seguintes: Inglaterra, 184 mil; Alemanha, 93.600; França, 66.530; Espanha, 76.430; Itália, 61.100 – para os mais relevantes mercados. Os elementos são fornecidos por Jakub Marian.

Outro pesquisador marca: no mesmo ano, na França, os campeões de vendagem foram Asterix e três livros contendo os 50 matizes de cinza, 50 mais claras, 50 mais sombrias; 25% dos livros vendidos eram romances, 6% de aperfeiçoamento docente. Sobre a França pode ser consultado o site Économie du livre, março de 2014. O número de livros ali editados em 2013 seria de 66.527. Escolho esse país porque é apontado como norma da cultura. Mas um lugar simbólico como a Livraria das Presses Universitaires de France fechou as portas, com prejuízo, dando lugar a uma loja de vestimentas masculinas. Parece mesmo que as calças e os paletós ali vendidos não têm altas qualidades de tecido e de corte.

Nas edições eletrônicas, em 2014 na França cerca de 8. 300 milhões de livros foram “baixados”. Havia 1 milhão de compradores de livros, ante 26 milhões de livros impressos. Perto de 3/4 dos compradores de livros eletrônicos também adquiriram livros físicos. Mas o texto eletrônico representa 1/6 dos negócios totais do livro e 2/4 dos volumes de venda. Se o Renascimento recomendava prudência diante das nouvelletés, hoje a internet as proporciona a cada instante, em número incalculável. Novos aplicativos, novas linguagens, novos conteúdos vêm a público, em velocidade tal que se torna difícil prever quando, e se, serão fixados em tendências intelectuais. O veloz aprimoramento técnico ultrapassa a força de empréstimo cultural recíproco, de país a país, e põe a invenção em número cada vez menor de nações. Poucos produzem para milhões que consomem, mas quase nada aprendem e pouco fixam na própria cultura. Os negócios na internet chegam aos trilhões, mas se retrai o raio dos produtores e consumidores aptos a inventar.

Se o pedantismo do livro impresso representou um fenômeno de indigestão tecnológica, científica e humanística, o problema cresce na forma eletrônica. No campo acadêmico, é útil e prejudicial o sistema Wikipédia do saber e os sites que entram em assuntos delicados do conhecimento. Eles abrem caminho ao famoso “corta e cola”. A prova da indigestão encontra-se em trabalhos universitários, na graduação e pós-graduação, sobretudo nas áreas que usam o discurso. Mas segundo estudos sobre a ética científica, mesmo em setores técnicos e científicos casos evidenciam usos incorretos de dados alheios, não examinados de modo suficiente, ou apropriação de pesquisa sem a devida referência. Mesmo dissertações magistrais e doutorais trazem marcas, não raro graves, do “método” pedante.

No mesmo tempo em que tais práticas e informes se espalham na internet, sites permitem fixar saberes antigos e inventar conhecimentos. É o caso do Projeto Perseus. Nele, além de textos essenciais da cultura grega e latina, existem dicionários, gramáticas, comentários filológicos e históricos.

Mas temos também o oposto: a técnica dos e-books leva ao pedantismo gigantesco. Editoras gigantescas oferecem aos escritores a oportunidade de publicar sem mediação de assessores, pareceristas, etc. A notícia do jornal Valor Econômico (30/4, pág. F8) é sugestiva: Autopublicação rende ‘50 tons’ de lucros. O indivíduo está livre e solto no mercado, sem apoio ou concorrência de seus pares. Eles são mônadas com uma só janela aberta para a megaempresa editorial. E descobrem que, em vez de publicar textos árduos, é mais lucrativo entrar na corrida pelos romances, segundo o padrão dos 50 tons de cinza, com pitadas de erotismo agridoce.

Em tal crise, importa comemorar o aniversário de uma editora, a Perspectiva, que bravamente insiste em nos trazer textos fundamentais da cultura em todos os campos, da ciência ao teatro, da poesia às artes plásticas, dos gregos aos árabes, da laicidade às religiões. Parabéns, Jacó Guinsburg!

* ROBERTO ROMANO É PROFESSOR DA UNICAMP E AUTOR DE 'RAZÃO DE ESTADO E OUTROS ESTADOS DA RAZÃO' (PERSPECTIVA)

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