Para onde vão os migrantes

Embora o Estado de São Paulo continue a registrar um fluxo migratório positivo, a Grande São Paulo, que durante muitas décadas foi o principal destino dos que deixavam sua terra em busca de trabalho, tornou-se um exportador líquido de migrantes. Na década passada, mais migrantes deixaram a região metropolitana de São Paulo do que chegaram. Entre 2000 e 2010, a Grande São Paulo perdeu, em média, 30.362 migrantes a cada ano, como mostra um estudo elaborado pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), a partir do cruzamento de dados do censo demográfico do IBGE e de sua própria base de dados sobre nascimentos e mortes no Estado.

, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

O estudo examina a variação populacional do Estado de São Paulo a partir de dois componentes: o crescimento vegetativo e o fluxo migratório. Este último componente já teve papel essencial no aumento da população do Estado. Entre 1970 e 1980, por exemplo, a taxa de crescimento anual da população de São Paulo foi de 3,51%, o que correspondeu a um aumento médio de 728.323 pessoas por ano, do qual o saldo migratório respondeu por 308.317, ou 42,3%. Na década passada, quando a taxa de crescimento anual se reduziu para 1,1% (abaixo da média nacional de 1,2%), a participação do fluxo migratório caiu para 11,2%. O Estado de São Paulo continua a atrair migrantes, mas em número cada vez menor.

O dado mais notável do estudo da Fundação Seade é o que mostra que o antigo polo de absorção de migrantes perdeu seu papel. Entre 1990 e 2000, a Grande São Paulo era a região mais atraente para os migrantes, tendo seus 39 municípios recebido, em média, 24.399 pessoas por ano. Na década seguinte, a principal região metropolitana do Estado passou a perder mais de 30 mil migrantes por ano.

Quando se examinam os números relativos a cada um dos municípios da Grande São Paulo se observa que a capital já vinha perdendo migrantes desde a década de 1990 a 2000. Naquela década, porém, os que deixavam a capital geralmente procuravam outros municípios metropolitanos, que, além disso, continuavam a receber migrantes de outras regiões e Estados, de modo que o saldo migratório da Grande São Paulo se manteve positivo. Na década seguinte, porém, também outros municípios se tornaram, no conjunto, exportadores líquidos de migrantes, daí resultando o saldo negativo da Grande São Paulo no período.

No Estado, outras regiões passaram a receber parte dos que deixaram a Grande São Paulo e os que continuaram vindo de outros Estados. As regiões metropolitanas da Baixada Santista e de Campinas, sobretudo esta última, continuam a registrar fluxo migratório positivo. O estudo indica que, das grandes metrópoles, a preferência dos migrantes se desloca para cidades médias, como Jundiaí, Americana, Limeira, São Carlos e Araraquara, que têm uma economia dinâmica e ainda não enfrentam os problemas típicos das metrópoles, como alto custo de vida, trânsito congestionado e falta de segurança.

A redução contínua do fluxo migratório para o Estado de São Paulo, por sua vez, tem a ver com o surgimento de novos polos econômicos, sobretudo na área da agroindústria, como os Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e com os programas de renda do governo federal, como o Bolsa-Família, que reduzem a necessidade das famílias de deixar sua terra de origem para buscar trabalho em outra região. Além disso, outras regiões - como o Nordeste, que durante décadas foi o principal polo gerador de migração do País - crescem proporcionalmente mais do que São Paulo.

Há, ainda, o fator lembrado, em entrevista ao Estado, pelo pesquisador do Ipea Herton Fleury, que acompanha os processos migratórios no País. Trata-se da exigência, no mercado de trabalho de São Paulo, de qualificação profissional mais avançada, em termos de treinamento e educação formal.

Apesar de tudo, por pagar salário médio maior do que o de outros Estados, São Paulo ainda atrai migrantes.

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