Para salvar a Bancoop

Já não sem tempo, o Ministério Público (MP) requereu a intervenção judicial na Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop), com o afastamento do seu presidente e de duas diretoras, além da indisponibilidade dos seus bens até o limite dos valores devidos pela entidade. "Esgotou-se a expectativa de que os administradores observassem seus deveres e regularizassem eventuais desmandos", escreveu a promotora de Justiça do Consumidor Karyna Mori, na petição de 118 páginas.

O Estado de S.Paulo

26 Junho 2012 | 03h08

A rigor, os desmandos não são menos reais do que a relutância da cúpula da cooperativa em ressarcir as vítimas de um escândalo cujas primeiras evidências foram levantadas em 2006. A cooperativa, criada 10 anos antes por um sindicato atrelado ao PT, tungou 3 mil cooperados que acreditaram na promessa fraudulenta de se tornarem proprietários de imóveis pelos quais desembolsariam 40% menos do que os valores de mercado.

Em outubro de 2010, o MP paulista pediu abertura de processo por formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro contra o então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e cinco outros companheiros. Depois de participar da diretoria da entidade durante oito anos, ele a presidiu de 2005 a fevereiro de 2010. Os incautos cooperados compraram na planta e pagaram as prestações de 1.126 moradias, no valor total de R$ 100 milhões. Ou não receberam os imóveis ou os receberam sem condições de serem ocupados.

Dos 46 empreendimentos oferecidos pela Bancoop, 28 não foram concluídos e 13 nem sequer saíram do papel. Vaccari e seus comparsas foram acusados pelo promotor José Carlos Blat de cavar um rombo de R$ 168 milhões na conta da entidade. "Uma parte foi para o PT", sustenta o promotor. Um único repasse de R$ 200 mil foi identificado. Mas R$ 31 milhões foram sacados na boca do caixa em sucessivas operações. "A quadrilha contava com sofisticada manipulação de dados dos balanços contáveis", registrou Blat.

A sua colega Karyna Mori, por sua vez, destaca no seu documento que a atual diretoria da Bancoop é intimamente ligada aos seus antecessores. O presidente Wagner de Castro, para começar, acumula ainda as presidências dos sindicatos dos bancários do ABC e São Paulo. Ele é filiado ao PT, assim como a diretora técnica Ivone Maria da Silva, também dirigente de organismos sindicais ligados à CUT. Ela doou recursos para a campanha do candidato a deputado federal do ex-diretor do Bancoop Ricardo Berzoini.

A propósito, quando coordenador da campanha de reeleição do presidente Lula, em 2006, Berzoini chamou o ex-diretor do Banco do Estado de Santa Catarina Jorge Lorenzetti para integrar a equipe de inteligência do PT. Tornou-se um dos nove "aloprados" - protagonistas da tentativa de comprar, por R$ 1,7 milhão, um dossiê contra o então candidato tucano ao governo paulista, José Serra. Há dias, a Justiça de Mato Grosso enfim abriu processo contra os envolvidos no escândalo.

O criminalista Alberto Zacharias Toron, defensor de um deles, Hamilton Lacerda, que à época coordenava a campanha do petista Aloizio Mercadante ao Palácio dos Bandeirantes, disse estranhar que a denúncia tenha sido oferecida (e aceita) "em período pré-eleitoral e muito próximo ao julgamento do mensalão". Coincidentemente - ou não -, o advogado da Bancoop, Pedro Serrano, acusa a promotora Karyna de ser movida pelo "desejo inconfessável de levar essa questão para as próximas eleições, dando caráter político à demanda".

Por esse raciocínio, os escândalos da Bancoop, mensalão e aloprados não poderiam ser objeto de procedimentos judiciais em anos de eleição - um em cada dois, no Brasil. No caso da cooperativa, a Justiça deveria ignorar o prosseguimento, segundo a promotora, "das práticas achacantes para cobrir os rombos verificados até o momento". O pedido de intervenção judicial na entidade, conforme deliberação de 2011 do Conselho Superior do Ministério Público, visa a sustar tais práticas, cujo custo recai não sobre a diretoria, mas sobre a entidade, em prejuízo dos cooperados.

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