Para voltar a crescer

O que é preciso fazer para a economia voltar a crescer? Essa foi a pergunta que se buscou responder no último evento do ano da série Fóruns Estadão Brasil 2018, uma iniciativa do Estado, em parceria com o Insper - Instituto de Ensino e Pesquisa, cujo objetivo é discutir as perspectivas da economia brasileira. A resposta - unânime, entre os economistas e pesquisadores presentes - é a implantação de um sério e imediato ajuste fiscal.

O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2014 | 02h05

Os dados econômicos do último ano de governo do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff não deixam margem para dúvidas a respeito da necessidade de uma mudança na política econômica. Crescimento econômico pífio, aumento da dívida pública, descontrole fiscal, inflação batendo o teto da meta, desconfiança dos mercados, investimentos em baixa e represamento de preços formam um cenário que preocupa - e impõe a necessidade de uma mudança de rumo na gestão da política econômica.

Segundo a avaliação dos especialistas presentes no evento, a recente alteração da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2014, com o abandono da meta de superávit primário, evidencia a falta de planejamento e de compromisso com as contas públicas do atual governo. A mudança na LDO foi a solução de curto prazo para um descaso com a política fiscal que fugia do âmbito da legítima discricionariedade política e avançava perigosamente para o campo da ilegalidade. Dessa forma, ela foi apenas uma solução jurídica, para evitar determinados efeitos legais oriundos do descumprimento da meta. Para a economia voltar a crescer, o País precisa de muito mais.

Durante o evento, a indicação de Joaquim Levy para ministro da Fazenda foi um dos temas comentados, já que sinaliza uma mudança na política fiscal do próximo mandato da presidente Dilma. Marcos Lisboa, vice-presidente do Insper, alertou, no entanto, que o necessário ajuste fiscal vai além da atuação de um ministro da Fazenda. "Isso não é tarefa de ministro da Fazenda, é agenda de governo, que tem grandes desafios, como a definição de uma agenda legislativa", comentou Lisboa.

Para Samuel Pêssoa, economista da Fundação Getúlio Vargas, "a forte desaceleração da economia é fruto de uma experiência de política econômica que desorganizou a economia". E reorganizar a economia exige mais do que medidas pontuais. A experiência recente do atual governo indica tal realidade: as medidas pontuais não funcionaram. Ou seja, atuar apenas aí seria insistir no mesmo erro. "Se o governo não der sinais claros de que caminha neste rumo (estabilizar a dívida pública), perdemos o grau de investimento no prazo de um ano e meio", avalia Pêssoa. "O problema é que os gastos estão subindo numa velocidade muito maior que a taxa de crescimento do PIB. Em 1999, a taxa da dívida pública era de 14,5%. Este ano, fechamos com 20%. Nunca foi tão rápido."

"Fomos piores que Coreia, Chile e Turquia", ponderou João Manoel Pinho de Mello, professor do Insper. E uma das razões para esse crescimento tão fraco foi a atuação desastrada do governo federal. "O governo não sabe induzir competição, mas acredita que sabe mais que o mercado o que é o melhor retorno para o investimento", comentou o professor do Insper.

Dinamarca e Irlanda foram citadas pelo professor de economia da USP Carlos Eduardo S. Gonçalves como experiências positivas de retomada de crescimento proporcionada por um ajuste fiscal sério. No país escandinavo, houve nos anos 90 um ajuste fiscal na ordem de 10% do PIB, o que possibilitou ao país um período de grande crescimento econômico, a partir desse ajuste. Para Gonçalves, "a presidente não acredita muito em reforma fiscal, mas há o risco de o País perder investimento, o que prejudica o fluxo de capitais".

A nada alentadora situação econômica do País vai impondo uma convergência de opinião entre os diversos especialistas. Não ignorar o seu diagnóstico - e, principalmente, o seu prognóstico - pode ser um bom começo para um governo que, de fato, precisa recomeçar.

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