Parada no lugar errado

A semana passada e esta foram marcadas na capital paulista por dois grandes eventos ? a 18.ª Marcha para Jesus, dia 3, e a 14.ª Parada do Orgulho Gay, dia 6. Ambos com organização impecável, sem incidentes, apesar do grande número de participantes ? cerca de 2 milhões no primeiro e 3,5 milhões no segundo ?, numa demonstração do quanto São Paulo convive bem com manifestações as mais diversas, nas quais a população local e milhares de outras pessoas vindas de todo o Brasil e do exterior podem exprimir suas convicções, suas reivindicações e sua maneira de ser com a maior liberdade e em ordem.

, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2010 | 00h00

Num aspecto da maior importância, porém, registrou-se uma diferença para a qual é indispensável chamar a atenção e pela qual o responsável é justamente o poder público, a quem cabe determinar onde multidões como essas podem se reunir ? uma, a Marcha para Jesus, realizou-se no lugar certo, e a outra, a Parada Gay, no lugar errado.

A Marcha saiu às 10 horas da Estação Tiradentes do Metrô, passou pela Avenida Santos-Dumont, pela Praça Campo de Bagatelle e foi até a região do Campo de Marte. Essa mudança ? antes ela era realizada na Avenida Paulista ? não causou prejuízo ou incômodo aos seus participantes e organizadores, que puderam exprimir seus sentimentos e emoções e fazer suas orações sem qualquer inibição, tal como o faziam antes. Com a vantagem para o restante da população de que o evento não causou transtorno maior para vida na cidade.

O único problema da Parada Gay foi o local onde ocorreu esse evento, a Avenida Paulista. Quanto ao mais, tudo correu como sempre ? muita alegria, descontração e irreverência, próprias desse tipo de manifestação, dentro dos limites toleráveis. Essa tem sido a marca da Parada, que por isso conquistou a simpatia da população, independentemente de adesão às opções e à maneira de ser dos seus participantes, encaradas com o respeito que merecem.

Mas o problema do local é grave. Na verdade, é inaceitável que qualquer evento ou manifestação que paralise a Paulista ? seja a Parada Gay ou qualquer outro ? tenha a autorização da Prefeitura. Foi ela que, atendendo aos reclamos da população nos últimos anos, decidiu corretamente retirar da Paulista grandes eventos como a Marcha para Jesus e as comemorações de 1.º de Maio.

Não há nada que justifique a exceção para a Parada. Por que dois pesos e duas medidas? Os defensores da sua manutenção na Paulista sempre apontam como um dos grandes argumentos a seu favor o impacto positivo para a rede hoteleira, o comércio e os serviços em geral desse evento, que, segundo as estimativas, movimenta R$ 190 milhões. Quantia considerável, que o coloca ao lado do carnaval e da Fórmula 1 como os eventos mais lucrativos para a cidade.

Mas donde surgiu a ideia, subjacente ao raciocínio dos defensores de sua permanência na Paulista, de que, se o evento mudar de lugar ? para o mesmo da Marcha para Jesus, por exemplo ?, ele se torna inviável e a cidade perde R$ 190 milhões? Esse é um argumento comodista e demagógico. Mesmo se fosse verdadeiro, não se justificaria a rede hoteleira, o comércio e outros serviços ganharem dinheiro à custa dos riscos e transtornos para a população acarretados pela paralisação da Paulista e outras vias das imediações por tanto tempo.

Não custa lembrar que na região da Paulista se encontra grande número de importantes hospitais, entre os quais o das Clínicas, do Coração, Santa Catarina, Oswaldo Cruz, Sírio-Libanês, Nove de Julho e Beneficência Portuguesa. A realização de grandes eventos na Paulista dificulta grandemente, quando não impede, por longo tempo, o acesso de ambulâncias a esses hospitais, colocando vidas em risco. Ignorando tudo isso, autoridades como o governador do Estado e o prefeito da capital compareceram à Parada Gay. E se amanhã os organizadores da Marcha Para Jesus e das comemorações de 1.º de Maio reivindicarem o direito de também ? por que não? ? se reunirem na Paulista, o que lhes dirão um e outro?

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