Paradoxo ambiental

A realização, em agosto, do primeiro leilão em cinco anos para a oferta de energia elétrica a ser gerada em usinas térmicas que utilizam o carvão como combustível sintetiza o que o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, chama de "paradoxo ambiental" no setor.

O Estado de S.Paulo

09 Julho 2013 | 02h05

De fato, a maior utilização de usinas térmicas - inclusive as que usam carvão, cuja combustão resulta em lançamento de poluentes no ambiente - tende a piorar a qualidade do ar, mas ela decorre de restrições ambientais à ampliação da geração hidrelétrica, que não polui o ambiente.

Há tempos, o presidente da EPE, a empresa federal encarregada de planejar a expansão das fontes de energia do País, vem observando que será necessário incluir novas usinas térmicas na próxima revisão anual do Plano Decenal de Expansão de Energia, cujo horizonte será estendido para 2022.

A geração hidrelétrica representa cerca de 70% da matriz elétrica brasileira e, até 2021, o governo pretende ampliá-la em 39%. No entanto, esse aumento será insuficiente para atender à demanda, e não poderá ser maior porque dois fatores, ambos de natureza ambiental, vêm limitando a expansão da geração hidrelétrica.

Um deles, lembrado por Tolmasquim ao anunciar o leilão de térmicas a carvão, é o atraso na concessão de licenças ambientais para diversos projetos hidrelétricos, o que resultará no atraso da entrega da energia que eles deverão gerar. Isso exigirá a geração dessa energia por outras formas, o que implicará o aumento da participação das termoelétricas no sistema, inclusive as que utilizam carvão.

Outro fator que reduz a geração hidrelétrica é a exigência de diminuição, ou até a eliminação, dos reservatórios, para evitar a inundação de florestas ou áreas consideradas intocáveis por ambientalistas e indigenistas. Os reservatórios asseguram às usinas em operação no País o fluxo regular da água por suas turbinas, independentemente do regime dos rios.

Novas usinas licenciadas, como as de Jirau, Belo Monte e Teles Pires, no entanto, operarão no regime de fio d'água, isto é, suas turbinas serão movidas pelo fluxo natural do rio, que varia de acordo com as estações. Isso reduz de maneira expressiva sua capacidade efetiva de geração, na comparação com a capacidade das usinas com reservatórios.

Para evitar uma crise de abastecimento no futuro é preciso programar o aumento da geração por outras fontes que cubram o déficit de geração hidrelétrica. "O mercado precisa ter a garantia do suprimento da energia", disse Tolmasquim, "então foi necessário incluir usinas a carvão, além das de biomassa e a gás natural."

A intenção do governo é que a expansão da participação das usinas termoelétricas no sistema de geração de energia elétrica nos próximos anos seja sustentada por unidades que utilizem o gás natural como combustível, por sua eficiência energética e por seu baixo potencial de poluição.

Quanto mais gás se utilizar, menor será a necessidade de usar carvão, mais poluente, ou de expandir a geração nuclear, cujo custo é muito mais alto. O mais recente planejamento energético do governo previu a necessidade de construção de quatro a oito usinas nucleares até 2030, mas Tolmasquim admite que isso será revisto.

A desejada intensificação do uso do gás natural, no entanto, esbarra em um problema concreto. Qualquer que seja o combustível, o custo da geração termoelétrica é mais alto do que o da hidrelétrica, mas, mesmo intensificando o uso das termoelétricas, o governo quer assegurar o fornecimento sem onerar excessivamente o consumidor. Isso será mais difícil com a expansão da geração a gás, pois o gás natural liquefeito que o País importa é caro e não se dispõe de alternativa economicamente viável a ele.

O leilão de agosto será para oferta de energia em 2018, a ser gerada por usinas térmicas. A necessidade de garantir o fornecimento futuro de energia elétrica, sem que o consumidor pague demais por isso, forçou a escolha das usinas a carvão.

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