Parcos resultados do G-20

Dos grandes temas que alguns dos principais participantes da reunião dos ministros das Finanças e dos presidentes dos bancos centrais das 20 maiores economias do mundo (G-20) queriam incluir no documento final divulgado no encerramento do encontro realizado em Paris, na semana passada, praticamente nenhum sobreviveu. A principal decisão da reunião foi a criação de um sistema de indicadores de desequilíbrio econômico, que, se interpretados corretamente pelos governos dos países em dificuldades, poderão evitar o agravamento dos problemas. Mas os indicadores não resultarão em imposições para os governos dos países com problemas. Serão apenas "recomendações" para a correção de eventuais desvios das políticas econômicas.

, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2011 | 00h00

Debatido ininterruptamente da noite de sexta-feira até a manhã de sábado, o documento exclui os temas mais polêmicos, sobre os quais havia divergências insuperáveis entre os membros do G-20. A questão que vem sendo discutida há mais tempo nas reuniões internacionais é a política cambial da China, que mantém sua moeda, o yuan, artificialmente desvalorizada para estimular as exportações. Essa prática vem sendo criticada cada vez mais duramente pelo governo dos Estados Unidos, cujo déficit comercial com a China cresce sem parar, e por outros países.

Durante a discussão, a questão cambial foi incluída no documento por insistência dos EUA e retirada por exigência da China. Acabou sendo mantida no documento final, mas como citação. O texto aprovado estabelece que os indicadores internos serão baseados na dívida pública e no déficit fiscal, além dos índices de poupança e de endividamento do setor privado. Na área externa, os desequilíbrios serão aferidos com base na balança comercial e no fluxo de investimentos externos, "levando na devida consideração a taxa de câmbio". Essa referência tão ambígua à questão é a que foi aceita por todos.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, ambicionava transformar a reunião de Paris num marco da reforma do sistema financeiro global, uma espécie de nova Bretton Woods - cidade americana onde, em 1944, representantes de 45 países firmaram o acordo que estabeleceu a nova ordem monetária mundial e criou o FMI e o Banco Mundial. O documento reconhece que há vulnerabilidades no sistema monetário internacional, daí a necessidade de seu aperfeiçoamento. Mas esse objetivo será perseguido através do fortalecimento de instituições como o FMI, que está incumbido de apontar os países que mais contribuem para o equilíbrio ou o desequilíbrio mundial.

Outra questão que o governo francês pretendia discutir na reunião era o controle dos preços das commodities, para evitar as operações especulativas que resultam em altas de preços. O Brasil e os países do Bric (Rússia, Índia e China), agora com a presença da África do Sul, discordaram da proposta, que, por isso, não avançou. Nada foi decidido sobre o assunto.

Também nada se decidiu sobre a limitação do acúmulo de reservas internacionais, medida que tinha como principal alvo a China (cujas reservas superam US$ 1 trilhão) e também o Brasil. Como na proposta de controle das commodities, também na questão das reservas o grupo dos Brics e os emergentes em geral se colocaram contra a proposta dos industrializados.

Não haverá nenhum resultado imediato do que se decidiu em Paris. Cada governo continuará a executar a política econômica que vem seguindo e não se reduzirá imediatamente o risco de uma guerra cambial ou comercial. Mesmo assim, a ministra da Economia da França, Christine Lagarde, falando em nome do G-20, disse que todos estavam "muito satisfeitos com os resultados atingidos".

Seu otimismo tem algum fundamento. Embora o documento não tenha impacto prático e o sistema de indicadores a ser criado não irá impor deveres nem sanções aos governos com problemas, o acordo pelo menos preserva o processo de negociação de novos mecanismos e estruturas que possam reduzir os riscos econômicos globais.

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