Paris, reine du monde

Paris, reine du monde / Paris c'est une blonde. Depois de tantas denúncias sobre as viagens de Sérgio Cabral e suas relações com o dono da Delta, Fernando Cavendish, tenho vontade de cantar.

Fernando Gabeira,

11 Maio 2012 | 03h08

De que adiantaram tantos argumentos racionais? Algumas imagens de uma única de cem viagens de Cabral ao exterior bastaram para convencer milhares de pessoas, antes indiferentes às denúncias, de que algo realmente singular acontece no Rio. Posso até parar de fazer sentido ou, então, buscar outro sentido na coleção de imagens que nos chegam de Paris. Cantarolando, cheguei à conclusão de que existe até uma loura na história.

Paris c'est une blonde. Na festa da cúpula do governo Cabral, a loura estava lá, corpo atlético e imenso decote nas costas tatuadas. Ela aparece dançando com Cavendish: ele está levemente inclinado e as costas da loura dominam o quadro. Não consegui decifrar a tatuagem. Uma borboleta, talvez. Um fragmento da imagem mostra um microfone, sugerindo que alguém canta, talvez a loura faça parte do show. Ela reaparece em outra foto, diante do grupo com guardanapos na cabeça, e mobiliza com sua presença toda a energia masculina.

Seria uma Joana d'Arc moderna? Estariam os homens com guardanapo na cabeça, alinhados piratas, saudando a heroína e prometendo guerra à pérfida Albion? Duvido. Nem o pós-modernismo seria capaz de criar uma Joana d'Arc tão animada nem os piratas de linho branco estariam preocupados com a sorte da França.

Há um momento, dizia o poeta, em que todos os bares se fecham e todas as virtudes se negam. No caso deles, não se trata de uma conjunção fortuita em certo instante da madrugada. Primeiro, eles fecham os bares, depois, então, é que negam todas as virtudes.

"Let's win some money", diz Cavendish nessa mistura de inglês e português nascida do florescente turismo brasileiro no exterior. Ele disse a frase quando uma das festas estava no fim. O bar, no caso, o Salão Luís XV, do restaurante de Mônaco parecia fechado para eles. Se tivesse de escrever os gritos dos piratas de linho branco, colocaria só esta frase, tal como foi dita: Let's win some money. Eles saudariam a loura como se fosse um bezerro de ouro.

Let's win some money é o lema de um partido que se formou dentro e fora do governo, ao mesmo tempo que surgia uma nova classe C no País. As quatro mulheres exibindo belos sapatos com sola vermelha de Christian Louboutin não podiam só estar na rua diante de um fotógrafo. Elas são o coro ideal para o grito dos piratas. A cena ficaria assim: eles, avançando pelas mesas de um restaurante vazio, gritariam: "Let's win some money". E elas ergueriam os sapatos em passos de can-can.

Se quisermos falar a verdade na ficção, precisamos tomar certas liberdades. Por exemplo, a sola do sapato da mulher do secretário de Saúde devia ter só uma cruz vermelha sobre fundo branco. Isso daria um toque social à festa. "Estamos no melhor Alain Ducasse do mundo", segundo Cabral. "Melhor que os EUA, melhor que o..." A voz dele vai sumindo. Não sabemos qual é o terceiro. Só sabemos que no melhor Alain Ducasse do mundo ele marca o casamento de Cavendish e espera a meia-noite para celebrar o aniversário de sua mulher, próspera advogado de concessionárias do governo.

"O casamento tem de ser no sábado. É festa", diz Cavendish. "Podemos ir para Mangaratiba ou Itaipava", sugere a mulher de Cabral. Nesse ponto é necessário um corte para quatro mansões de Mangaratiba, espaço paradisíaco que a primeira-dama visita com filhos e babá num helicóptero do governo. Ali três piratas de linho branco têm casas ao lado de Cabral: Cavendish, Sérgio Côrtes e George Sadala. O quarteto de Mangaratiba é apenas uma linha de roteiro: a história de cada um e como se entrelaçam os destinos no melhor Alain Ducasse do mundo.

"Abra essa boca", diz Cabral à mulher de Cavendish no momento em que selam a data do casamento. Cabral sabe que há modo de beijar não beijando, como os atores. Mas quer a realidade molhada de um beijo real. Para quê? Se imaginasse que a imagem cairia nas mãos de Garotinho, passaria mal e, com o perdão do melhor Alain Ducasse do mundo, os guardanapos teriam outro uso. A cena só seria possível quando recebesse a notícia, anos depois, no segundo Alain Ducasse, ou no terceiro, quem sabe. Garotinho divulgou as imagens num fim de semana.

Não se despreze a contribuição dos coadjuvantes. Quando Cavendish propõe "let's win some money", uma voz feminina, quase imperceptível, responde: "Só se for muito, porque dá trabalho". É uma boa frase. Se considera que dá muito trabalho ganhar dinheiro em cassino, o que pensará de quem trabalha oito horas por dia e sofre quatro horas se deslocando nas grandes cidades? A frase não tem a mesma força do "então, comam brioches" de Maria Antonieta. É mais ou menos assim: então, comprem um helicóptero.

Let's win some money não é um slogan qualquer. É um estado de espírito que anima estes anos no Brasil. No melhor Alain Ducasse do mundo jantavam alguns personagens do maior plano de infraestrutura do mundo, o PAC. Na boca de Cavendish, que aparece numa gravação dizendo que compra políticos de acordo com a necessidade de seus negócios, ele soa diferente. E se complementa assim: Let'win some money para comprar políticos que compram vinhos, fecham restaurantes e usam sapatos Louboutin.

O livro de Alain Riding Paris, a Festa Continuou é um relato minucioso de como a cultura francesa sobreviveu à invasão alemã e conviveu com os ocupantes. Um dos sonhos dos nazistas era tornar a cultura francesa irrelevante e, na definição dos Goebbels, dominada pelo kitsch. Para o quarteto de Mangaratiba, a luta continua. Em Mangaratiba embarcavam os resistentes, algemados no porão, rumo ao presídio da Ilha Grande. Nise da Silveira e Graciliano Ramos passaram por lá, em outras épocas. Como o Brasil mudou! Que tal defini-lo com a frase de um coadjuvante do jantar, referindo-se ao restaurante: "Pô, isso é um upgrading"?

Esses fantasmas tropicais não surgiram por acaso no Salão Luís XV. Eles falam uma nova língua, encarnam um novo tempo.

* JORNALISTA

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