Parques abandonados

Dos 106 parques municipais, 80 não têm equipes completas de manutenção e vigilância e, em muitos deles, nem mesmo esses serviços precários existem

O Estado de S.Paulo

22 Abril 2017 | 03h02

O estado deplorável em que a atual administração encontrou os parques da cidade, mostrado em reportagem do Estado, é um bom exemplo do que foi o governo de Fernando Haddad: uma mistura de incompetência e demagogia, de prioridade ao brilhareco de ações destinadas a impressionar os incautos e de desdém pela solução dos verdadeiros problemas de São Paulo e pela preservação dos equipamentos públicos que de fato interessam à população. Neles sobram sujeira, mato alto, brinquedos quebrados e falta segurança, o que torna difícil e caro o trabalho para a sua recuperação.

Os números que retratam essa realidade são impressionantes. Do quadro de 1.150 vigilantes, só 780 estão em atividade, de acordo com dados da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Do total de 1.100 funcionários que deveriam cuidar da manutenção, menos da metade – 500 – está trabalhando. Não admira que, dos 106 parques municipais, 80 não tenham equipes completas de manutenção e vigilância e, em muitos deles, nem mesmo esses serviços precários existam.

A situação do Parque do Carmo, em Itaquera, na zona leste, um dos maiores de cidade, com 1,5 milhão de m², resume bem o que em geral se passa nos demais. Sem serviço de limpeza desde novembro do ano passado, suas escadas, canteiros e até playground estão tomados pelo mato. Há churrasqueiras pichadas e bancos quebrados. No Parque da Aclimação, na zona sul, além da sujeira, há também banheiros fechados. No Parque Trianon, na Avenida Paulista, a falta de segurança afastou a maioria dos frequentadores. O que se passa nesses três se repete, com pequenas diferenças, nos outros 77 parques nos quais a situação é mais grave.

Numa cidade como São Paulo, com poucas opções de lazer, os parques são de grande importância para todas as camadas da população, em especial para as de baixa renda. Elas foram todas afetadas porque o abandono atingiu o conjunto desses equipamentos, do centro às regiões pobres da periferia, passando pelos bairros de classe média e alta. Nisso, Haddad foi “democrático”, prejudicando tanto os pobres como os ricos, ou “nós” e “eles”, para usar as expressões e a divisão social tão do gosto do seu partido, o PT. Com a agravante de que os pobres têm menos opções de lazer.

Devolver aos parques condições mínimas de frequência, depois do desleixo com que foram tratados por Haddad, não será tarefa fácil para o prefeito João Doria. Foi criada força-tarefa, integrada por funcionários dos parques e das Prefeitura regionais, voluntários e empresas, que estão fazendo mutirões para cuidar dos que se encontram em piores condições. Desses, 38 já foram recuperados. O secretário do Verde e do Meio Ambiente, Gilberto Natalini, reconhece e elogia a colaboração da população e de empresários, mas adverte, com razão, que “isso tem um limite”.

Quando for superada a fase mais aguda do problema deixado pelo governo anterior, será preciso adotar ações que garantam a manutenção dos parques num nível elevado de qualidade. Seja por meio do projeto de Doria para sua concessão à iniciativa privada, seja pelo aumento para isso de recursos da Prefeitura, se o interesse de empresas não corresponder ao otimismo do prefeito, o que é perfeitamente possível. Não importa por que meio, oferecer à população esse tipo de equipamento é, aqui como em todo o mundo, uma obrigação do poder público.

É preciso cuidar também do estrago feito por Haddad em outros setores. É o caso, por exemplo, do resultado dos péssimos serviços de limpeza e de conservação das vias públicas. O ex-prefeito deixou uma cidade suja e esburacada. Trafegar por São Paulo tornou-se um perigoso exercício para evitar cair em buraco. E o mesmo se pode dizer de andar pelas calçadas – principalmente para idosos, deficientes e crianças –, levando-se em conta que boa parte dos deslocamentos diários é feita a pé. Para corrigir essa herança – o que já começou a ser feito no caso das vias esburacadas –, Doria terá de gastar muito tempo e dinheiro, ao menos nesse início de governo.

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