Passado, presente e futuro

A decepção dos brasileiros com a política é uma péssima notícia porque coloca em risco o futuro da democracia e da liberdade no País

O Estado de S.Paulo

30 Abril 2017 | 03h00

Monitoramento mensal de opinião relativo a abril realizado pelo Instituto Ipsos revela que é preocupantemente crescente o desencanto e a desconfiança dos brasileiros em relação aos políticos e, por extensão, à política. Nesse contexto, dois dados são particularmente significativos: a desaprovação ao presidente Michel Temer atingiu o índice de 87%, enquanto a aprovação popular do governo – que em seu melhor momento era de 31% em outubro do ano passado – despencou para 10% em abril, depois de ter registrado 17% em março. Por outro lado, o ex-presidente Lula, embora conte ainda com o apoio de 34% da população, tem um índice de 64% de rejeição, o que significa que dois de cada três brasileiros querem vê-lo pelas costas.

Essa pesquisa, cujo resultado foi antecipado pelo jornal Valor, não procura traduzir tendências eleitorais, mas avaliar o estado de espírito dos cidadãos em relação à conjuntura política. É claro que essa sondagem dá margem a especulações sobre tendências eleitorais, mas, como o escopo da investigação não é esse, a base para prognósticos torna-se tecnicamente menos segura do que aquela proporcionada por pesquisas efetivamente voltadas para o resultado das urnas.

A decepção dos brasileiros com a política é uma péssima notícia porque coloca em risco o futuro da democracia e da liberdade no País. Mas é perfeitamente compreensível o efeito devastador sobre as convicções democráticas do cidadão brasileiro causado pelo desnudamento do estado de putrefação em que se encontra o nosso sistema político.

Tornou-se evidente que a gestão da coisa pública, em todos os âmbitos, foi corrompida pela ambição desmedida do projeto de poder do PT, ajudado, no assalto aos recursos públicos, por maus políticos de todas as extrações, acumpliciados com bandidos de colarinho branco que enriquecem à custa de trambiques com os cofres públicos e da desmoralização da iniciativa privada e da economia de mercado.

Neste momento em que toda a nação brasileira e suas lideranças políticas deveriam estar solidariamente concentradas no enorme desafio de conquistar a confiança interna e externa na recuperação da economia, na criação de empregos e na retomada de investimentos estruturais voltados para o desenvolvimento social – não como dádivas dos poderosos, mas como conquistas da sociedade –, as forças do atraso se aliam, a pretexto de defender os “interesses dos trabalhadores”. Pois são esses trabalhadores que vão ficar sem aposentadoria a médio prazo, se aqueles que hoje os “defendem” lograrem impedir ou esvaziar a reforma previdenciária que o País reclama há décadas.

Nesse contexto, considerando também sua própria origem política e a de seus principais auxiliares, dá para compreender a crescente rejeição popular a que o presidente Michel Temer está exposto. O PMDB, por “pragmatismo”, foi o principal aliado do lulopetismo durante a maior parte dos 13 anos em que Lula e sua tigrada estiveram no poder.

Hoje, Dilma Rousseff sofre uma enorme rejeição: 77%, apesar de choramingar pelos cantos que foi vítima de um “golpe”. Um país que agora rejeita tão claramente o PT dificilmente poderia ter boa vontade com um governo que até um ano atrás era corresponsável pela catástrofe provocada pela soberba e incompetência da pupila de Lula.

Até porque os principais figurões deste governo também estão envolvidos até o pescoço com denúncias de corrupção. Além disso, um governo é sempre avaliado com base na percepção que o cidadão tem do presente e do passado. Michel Temer, por enquanto, só pode oferecer – e, justiça seja feita, está empenhado nisso – a perspectiva de um futuro melhor.

De qualquer modo, não deixa de ser um consolo saber que os brasileiros não estão dispostos a retornar ao passado. Mas o futuro depende daquilo que for construído hoje.

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