Passo arriscado

Não há evidências de que os russos estejam aumentando seu arsenal nuclear. E ainda que estivessem, há outros meios de pressionar ou mesmo retaliar o descumprimento do tratado sem a retirada sugerida por Trump

O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2018 | 03h00

Caso cumpra a ameaça de retirar os Estados Unidos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês), o presidente americano, Donald Trump, cometerá uma imperdoável imprudência, fazendo o mundo recuar até a beira dos riscos nucleares em que estava há 31 anos. Esta é a dimensão do risco que o abandono do tratado – que é reputado como o marco do fim da guerra fria –, de fato, representa.

O INF foi assinado no dia 8 de dezembro de 1987 em Washington entre o então presidente americano, Ronald Reagan, e o então líder da extinta União Soviética, Mikhail Gorbachev. O tratado proscreveu da cena internacional toda uma classe de mísseis armados com ogivas nucleares. Sua assinatura fez o mundo respirar aliviado após décadas de tensão entre os dois países.

Com o advento do INF, não apenas os arsenais nucleares das duas superpotências foram substancialmente reduzidos. A Europa Ocidental, antes vulnerável a rápidos ataques disparados por Moscou, tornou-se sensivelmente mais segura.

O signatário vivo do tratado, Mikhail Gorbachev, hoje com 87 anos, reagiu com dureza à intenção de Trump de acabar com o INF, classificando como “tacanha” a mente de quem cogita seu fim. “Não se deve romper de modo algum os acordos de desarmamento. É difícil compreender que a rejeição a estes acordos significa falta de sabedoria? É um erro”, declarou Gorbachev.

Sergei Ryabkov, vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, afirmou que uma retirada unilateral dos Estados Unidos do INF seria “muito perigosa”. O dirigente russo disse ainda que, caso os americanos abandonem mesmo o tratado, não restará alternativa à Rússia a não ser retaliar com “medidas de natureza técnico-militar”. “Mas preferimos que as coisas não atinjam este ponto”, disse o vice-ministro.

O chanceler alemão, Heiko Maas, classificou como “desastrosa” a intenção de Donald Trump de abandonar o INF. “Nós rogamos aos Estados Unidos que considerem as possíveis consequências (da saída do país do INF). O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário é o pilar da arquitetura de segurança da Europa”, disse Maas por meio de uma nota oficial.

O governo dos Estados Unidos acusa a Rússia de descumprir sistematicamente os termos do INF. Donald Trump chegou a afirmar estar surpreso que seu antecessor, Barack Obama, não tenha “renegociado ou saído” do tratado há mais tempo. No entanto, não há evidências de que, de fato, os russos estejam aumentando seu arsenal nuclear com mísseis de médio alcance. E ainda que estivessem, há outros meios de pressionar ou mesmo retaliar o descumprimento do tratado bem menos graves do que sua retirada.

Desde sua posse, em 20 de janeiro de 2017, Trump vem pautando a política externa dos Estados Unidos pelo isolacionismo, com pouca ou nenhuma preocupação com as consequências globais de suas decisões. Sob seu governo, os Estados Unidos já se retiraram de importantes acordos internacionais, como o Acordo de Paris, sobre mudanças climáticas, o acordo nuclear com o Irã (JCPOA, sigla em inglês para Plano de Ação Conjunto Global) e a Parceria Transpacífica, estabelecida com outros 11 países da região do Pacífico. São preocupantes também as manifestações de desapreço de Donald Trump pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Porém, nada até o momento parece ser tão grave quanto a saída dos Estados Unidos do INF e, consequentemente, a retomada de uma corrida armamentista no momento em que líderes mundiais se veem premidos diante de grandes desafios econômicos, ambientais e humanitários.

Evidente que se deve esperar que Trump leve em consideração os interesses de seu país em primeiro lugar. Não foi por acaso que o lema America First teve grande apelo na eleição que o levou à Casa Branca. Mas “defender” seu país com irresponsabilidade pode trazer consequências opostas às que se pretende.

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