Pauliceia desgravatada

Ahmadinejad, quem diria, acabou ditando moda na Prefeitura paulistana

Eugênio Bucci*, O Estado de S.Paulo

16 Março 2017 | 03h00

Para dizer que não sobrou nada, ficaram as fotografias. Nos primórdios do século 20, os paulistanos trafegavam com paletós espessos, pesados, sob o sol abrasador do Viaduto do Chá. Nas fotos em preto e branco desses livrões que enfeitam mesinhas em salas de visita (os tais coffee table books) a gente vê, acima de tudo, que são numerosas as gravatas escuras, negras como os paralelepípedos e os pneus dos automóveis. Naquele tempo, São Paulo era popularmente engravatada.

Mulheres raramente davam as caras. Quando aparecem nos retratos, caminham de cabelos presos e vestidões que lhes alcançam os tornozelos. E até elas, as mulheres, se adornavam ocasionalmente com arremedos de gravatinhas graciosas. Mas eram os homens os adeptos mais fervorosos. Com chapéus de feltro enegrecido nos logradouros públicos, eles transpiravam, suavam e derretiam, sem jamais abrir mão do laço no pescoço.

Penso nisso quando me dizem que agora, nos primeiros meses de 2017, o alcaide elegantérrimo decretou o fim da gravata no âmbito de sua administração. Meu pensamento vai e volta (o que, aliás, é rotineiro). Numa ida, pede exílio na iconografia de cem anos atrás. Numa volta, deixa-se embaralhar por uma pergunta traiçoeira. O fim da gravata seria uma inovação – palavra que virou um fetiche dos atores de mais sucesso na cena do poder – ou uma reinvenção – outro termo da moda – da gestão – palavra idem – metropolitana?

Lembro-me da solenidade de posse do prefeito de turno. Dias antes ele presenteara seu antecessor com uma dessas tiras de enfeitar colarinho. Isso mesmo: uma gravata. Aquela, em particular, era de uma seda rara e cara, mas não clara. O tom de plúmbeo azul evocava sentimento lúgubre, de quase luto. Lembro também que no dia da cerimônia de galante gala a própria autoridade em début apareceu devidamente engravatada, com uma peça em azul menos submarino, um azul tucano, decorado com tracejados em linhas claras perfazendo uma geometria de ângulos arredondados, como costumam ser os arranjos estratégicos do PSDB.

O nó do prefeito ficou irretocável, em linha com a moda presente. Nesta nossa época, em que o ser não é o que é (e assim aparenta ser o que não é), o ideal da perfeição estética requer um toque de imperfeição sintética. Daí o nó do alcaide. Segundo a escola que ele representa, nó de gravata que se preze tem de produzir uma irregularidade no relevo da fita que desce na vertical, rumo ao umbigo do cidadão. Essa irregularidade – apuradíssima – consiste numa “ondinha” que mergulha e volta, uma voluta embutida, uma reentrância delgada logo abaixo do nó propriamente dito. Trata-se de uma manobra rebuscada, quase barroca, na linguagem da roupa na “contemporaneidade pós-moderna”, entendeu?

Graças a esse truque de amarração, a face aparente da gravata não fica esticadinha, plana, prensada, como na farda de um coronel ou no uniforme de um contínuo, mas faz um recurvado para dentro, num “plissado” esguio e solitário, que serve para ostentar a maciez quase líquida da seda. O segredo está na dobrinha que não é propriamente uma dobra, mas um revolvimento em torno de si mesmo, num percurso sem arestas e sem aquele efeito de pregas vincadas das saias plissadas. Não se pense que seja um nó acessível a qualquer um. Em chita barata ninguém faz um laço daqueles. É coisa para celebridades endinheiradas, como o novo prefeito, que não veste costuras de segunda nem mesmo quando se fantasia de gari.

Na celebração da posse de si mesmo, ele sorriu ao ouvir, no pronunciamento afetuoso do antecessor, a notícia de que ele, antecessor, trajava a gravata exata que ganhara de presente. O estreante sorriu, envaidecido. Ato contínuo, condenou o item ao desuso oficial e, assim, transformou a gravata num signo do passado, do que ficou para trás, do que não deve mais voltar.

O futuro será diferente, desgravatado. Para ganhar luzes de agilidade, eficiência e despojamento, dispensará o signo antiquado. Em resumo, o acessório que atravessou os séculos denotando status e bons modos na etiqueta do chamado mundo democrático virou arquivo morto, foi para o almoxarifado da História.

Para justificar medida tão extremada, o governante fez menção ao calor dos trópicos asfaltados, mas isso não explica quase nada. Há mais aí. Uma chave possível para compreendermos a repaginação dos burocratas municipais está no dress code do mercado publicitário. Chega de bacharéis! Chega de barnabés! Agora, o Viaduto do Chá dará as costas ao formalismo dos jurisconsultos e abraçará de vez o life style da propaganda e do marketing.

Anos atrás, quem folheasse o jornal Meio & Mensagem, dedicado ao universo anunciante, encontraria fotos de profissionais de mídia em júbilo gravatício. Havia escolhas excêntricas, idiossincráticas e até humorísticas. Uns dependuravam pelo colarinho babadores que eram verdadeiros latifúndios, alguns com a estampa do Mickey Mouse. Outros preferiam cordõezinhos como os dos fazendeiros do Texas, sem falar naqueles que apostavam em cores ofuscantes, padronagens vibratórias ou tramas de crochê.

Isso tudo agora é passado. De uns anos para cá, no mesmo jornal, os homens posam de polo Ralph Lauren (conhece o tipo?) ou de camisa social com o colarinho desabotoado (haja falta de decoro), sob um blazer bem “casual” (pronuncia-se “quéjual”). Os almofadinhas ortodoxos preferem costumes caríssimos sobre as camisas de colarinho de dois botões acintosamente abertos. Rememoram, sem querer, a figura de Mahmoud Ahmadinejad, um dos primeiros a banir a gravata e o colarinho abotoado no noticiário internacional. Veja você: o ex-presidente do Irã, quem diria, acabou ditando moda na Prefeitura paulistana.

Fora isso, nada a declarar. Em tempos de desengravatamento imposto, de desgrataço a rigor, as fotografias em preto e branco do antigo Viaduto do Chá têm mais vida, mais cores e mais amores.

*EUGÊNIO BUCCI É JORNALISTA E PROFESSOR DA ECA-USP

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