Paulista, terra de ninguém

Na Avenida Paulista, qualquer um se “manifesta” quando bem entende, com total e antidemocrático desprezo pelo direito dos outros

O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 03h00

Primeiro foram as manifestações, a qualquer hora, sob qualquer pretexto, por qualquer grupo, dos mais numerosos aos mais insignificantes, mas bem organizados e aguerridos. Depois foram os camelôs, que aos poucos ocuparam toda a sua extensão. Finalmente foi a vez dos músicos de todos os gêneros, com potentes aparelhos de som. Não admira que a definição da avenida símbolo de São Paulo, feita pela presidente da Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro de Cerqueira César, Célia Marcondes, expresse uma triste verdade: “A Paulista virou terra de ninguém”.

E o que resolve fazer a Prefeitura a respeito? Nada que considere seriamente o problema que se criou ali. Como se estivesse conformada com a bagunça, ou - o que é pior - talvez até mesmo gostando dela, optou por algo tão desalentador como a situação a que chegou a avenida: criar um mínimo de regras para cadastrar e restringir o número de músicos. Em outras palavras, regulamentar a desordem - pelo menos uma parte dela - para que ela possa se perpetuar. Diante disso, é compreensível a reação conformada de Célia Marcondes, tendo de escolher o mal menor: “O ideal é que não tivesse nada na Paulista, mas, se continuar, que pelo menos faça cadastro. O mínimo que se espera é que alguém coloque ordem”. 

Há tantos músicos hoje na Paulista aos domingos que eles chegam a atrapalhar uns aos outros. A tal ponto que até mesmo eles aprovam a decisão da Prefeitura. Por volta das 15h30 do domingo 24/6, a reportagem do Estado constatou a presença, em pelo menos 21 pontos, de bandas, cantores solo e as chamadas “tendas” musicais, praticando gêneros que iam do heavy metal ao sertanejo, concentradas entre o Conjunto Nacional, perto da Estação Consolação do Metrô, e a sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Todas equipadas com caixas acústicas e amplificadores, produzindo barulho que perturba o sossego dos moradores da região, e em geral além do horário fixado, de 18h00, para término das apresentações.

As medidas que a Prefeitura pretende adotar na Paulista não vão, portanto, resolver nada. Só servem para colocar novamente em destaque a necessidade de acabar de vez com a bagunça que tomou conta da avenida. É perfeitamente aceitável e certamente do agrado de seus frequentadores que grupos musicais se apresentem na Paulista aos domingos e feriados, quando ela é fechada ao trânsito a maior parte do dia e deixada livre para os pedestres. Desde que essa atividade seja devidamente regulamentada em termos de horário, de volume de som dos equipamentos e da qualidade e do número dos grupos, que precisam ser muito menos que hoje. Ou seja, as restrições devem ser maiores do que aquelas que a Prefeitura pretende fazer e que nada mais são do que passar um verniz na algazarra.

Não se deve esperar, portanto, que ela ataque outro problema, também de sua competência e ainda mais grave: a presença de grande número de vendedores ambulantes, que transformaram a Paulista num imenso camelódromo, com o aumento da criminalidade, principalmente furtos e roubos, inevitável nesse tipo de aglomeração.

O mesmo se pode dizer - e nesse caso a responsabilidade é tanto da Prefeitura como do governo do Estado - das manifestações que há muito paralisam a Paulista, com repercussão em boa parte do sistema viário e com sério prejuízo para as pessoas que se dirigem a uma dezena de hospitais localizados na região. O que se passa na Paulista e em outras avenidas e praças da cidade nada tem a ver com o direito de manifestação, que aqui, a exemplo dos Estados Unidos e da Europa, deveria seguir regras estritas, a começar pelo pedido de autorização e o respeito aos horários. 

Na Paulista, qualquer um se “manifesta” quando bem entende, com total e antidemocrático desprezo pelo direito dos outros. O vão livre do Masp, ponto de encontro de “manifestantes”, virou o símbolo dessa baderna. O que acontece ali é inimaginável em qualquer outro museu importante do mundo. A avenida se tornou sim, sem exagero, terra de ninguém.

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