Paulistanos muito insatisfeitos

Uma pesquisa divulgada pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo e pela Rede Nossa São Paulo mostra que os paulistanos estão insatisfeitos com quase tudo na cidade em que vivem, especialmente em relação a temas que dizem respeito à administração pública. Não é à toa que, entre os entrevistados, nada menos que 57% se declararam dispostos a deixar a capital, se pudessem.

O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2015 | 02h03

A enquete, realizada pelo Ibope Inteligência, entrevistou 1.512 pessoas acima de 16 anos de idade no fim de 2014, com o objetivo de aferir o nível de satisfação com a qualidade de vida, as condições de moradia, o trabalho da administração pública e os serviços prestados. O resultado é um indicador chamado Índice de Bem-estar da Cidade de São Paulo (Irbem), medido desde 2008. De 1 (insatisfação total) a 10 (satisfação total), a média do Irbem ficou em 5,1, ante 4,8 em 2013. A melhora, contudo, não é suficiente para esconder a dificuldade de relacionamento dos paulistanos com a sua cidade. Dos 25 temas abordados, apenas 4 ficaram acima da média de 5,5, considerada ponto de corte da pesquisa para os itens de maior satisfação.

Os quatro temas mais bem avaliados têm pouco ou nada a ver diretamente com o trabalho do governo nem com os serviços públicos, e sim com a vida privada. São eles, pela ordem: relações humanas, religião e espiritualidade, trabalho e tecnologia da informação.

Desdobrando-se cada tema, os pesquisadores pediram a opinião dos entrevistados a respeito de 169 itens. No resultado final, 139 ficaram abaixo da média e só 28 ficaram acima.

Alguns dos aspectos da vida na cidade sobre os quais os paulistanos têm a opinião mais crítica são justamente aqueles aos quais atribuem maior importância: saúde, educação, habitação, segurança e mobilidade urbana. Em relação à saúde, a principal reclamação diz respeito ao tempo que se leva para conseguir marcar uma consulta. Na educação, os paulistanos deram a pior média para o item "respeito, valorização e reconhecimento dos profissionais" da área. No item habitação, receberam notas baixas as políticas de reurbanização de favelas e de solução para moradias em áreas de risco. Um exemplo desse drama está na zona sul - que, junto com a zona norte, tem o Irbem mais baixo da cidade -, onde as condições de moradia receberam nota média de 3,7.

Já no que diz respeito à mobilidade urbana, a média teve ligeira melhora em relação a 2013, de 3,9 para 4,1, mas as notas permanecem no geral muito baixas, especialmente em relação à segurança de pedestres, ao preço das tarifas, ao tempo de deslocamento e às soluções para reduzir o trânsito. Considerando-se que 68% dos entrevistados fazem uso de ônibus diariamente como meio de transporte, é possível dimensionar a importância dos investimentos nesse setor para a satisfação da maioria dos moradores.

Sobre a segurança, nada menos que 89% dos paulistanos se sentem pouco ou nada seguros. É um porcentual assustador e que se mantém mais ou menos nesse nível desde 2008. As notas médias dadas pelos moradores nesse quesito vêm caindo ano a ano. O nível de satisfação era de 4,3 em 2009, caiu para 4,0 em 2012, chegou a 3,9 em 2013 e agora está em 3,8. O item mais mal avaliado é "segurança na cidade", com 3,3, seguido de "segurança em seu bairro", com 3,5. A percepção que os entrevistados têm da "segurança de filhos e familiares" recebeu nota média de 3,9.

No entanto, na rabeira das avaliações, superando até mesmo o grande medo da violência urbana, aparece o tema "transparência e participação política", com média de 3,1. São duramente criticados diversos aspectos, como "transparência dos gastos e investimentos públicos" (2,8), "punição à corrupção" (2,8) e "honestidade dos governantes" (2,7).

A pesquisa mostra também que vem caindo, ano a ano, a percepção de que as instituições contribuem para melhorar a qualidade de vida. Isso significa que restabelecer a confiança dos paulistanos naqueles que os governam talvez seja um bom começo para melhorar a relação com a cidade.

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