Paulo Maluf, filho e algoz da revolução

Na disputa com Laudo Natel, em 1978, ele ousou se opor à vontade da cúpula militar

*ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 03h00

Nesta quadra em que Paulo Maluf é cassado pela Câmara dos Deputados e encerra sua carreira política, a mesma em que seu aliado José Maria Marin foi condenado a quatro anos de cadeia nos Estados Unidos, é curioso relembrar que eles foram os primeiros a derrotar a ditadura militar instalada no País em 1964.

Essa é uma situação paradoxal, porque ambos sempre tiveram péssima imagem, mas realmente eles conseguiram algo que parecia impossível: derrotar o candidato Laudo Natel, escolhido a dedo pelo general João Baptista Figueiredo, nas eleições indiretas para governador de São Paulo em 1978.

Paulo Maluf é claramente um filho da ditadura. Ele começou sua vida pública como presidente da Associação Comercial de São Paulo e nessa época foi indicado por seu amigo general Artur da Costa e Silva para a presidência da Caixa Econômica Federal. Depois, também por pressão desse general, foi nomeado prefeito de São Paulo pelo governador Abreu Sodré.

Dizia-se que o general Costa e Silva gostava de jogar baralho na casa de Paulo Maluf porque ganhava sempre. Ganhava e saía feliz com o amigo, que nunca ficava triste por perder. Naquela época, Laudo Natel fora indicado governador de São Paulo pelo general João Baptista Figueiredo e Paulo Maluf, o preferido de Costa e Silva, acabou sendo o seu secretário dos Transportes.

Em 1978 seriam realizadas eleições para o governo do Estado de São Paulo e dela participariam os dois partidos criados pela ditadura: a Arena, composta pelos políticos que apoiavam aquele sistema de governo, e o MDB, criado também pelos militares, com o propósito de projetar uma feição democrática ao processo ditatorial. Integravam o MDB políticos não radicais, como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Mário Covas e outros que, anos depois, nos devolveram a democracia.

Nessas eleições de 1978 para governador de São Paulo era necessário obter os votos dos delegados da Arena para vencer a disputa. É nesse ponto que o arenista Paulo Maluf, valendo-se de um atrevimento que sempre lhe foi peculiar, bem como de amizades na cúpula do Exército, decidiu concorrer contra Laudo Natel, também da Arena, que era o candidato oficial, indicado pelo poderoso general Figueiredo.

Como precisaria de votos dos delegados da Arena para vencer, Maluf aliou-se a José Maria Marin, político muito esperto, naquele sentido nada edificante da palavra, que tinha o apoio de muitos delegados. Com sua ajuda, Maluf conquistou o número necessário para a eleição.

Naquele momento, por força do apoio do general João Figueiredo, chamado de “tríplice coroado” (o primeiro em todos os cursos de que participou no Exército), era quase uma heresia supor que Laudo Natel não vencesse a disputa. Mas foi o que veio a acontecer: feita a contagem dos votos, Maluf e Marin obtiveram o sufrágio da maioria dos delegados e chegaram ao Palácio dos Bandeirantes – Maluf como governador e Marin, seu vice.

Essa divisão do partido governista teve sua influência no processo de restabelecimento da democracia, após 20 anos de governo militar. Embora os métodos de Paulo Maluf para conquistar a vitória fossem objeto de duras críticas, na verdade ele demonstrou a ousadia de se opor, com sua candidatura, à preferência do governo militar.

Não há nenhuma bondade no gesto de reconhecer que ele, sendo candidato quando isso parecia ser uma heresia, arrombou uma porta e abriu caminho para que nas eleições seguintes houvesse mais liberdade. Os adversários de Maluf não gostam que se diga isso, mas é fato inconteste: foi a primeira vez que um político se atreveu a disputar contra a vontade da cúpula militar.

Sempre se dizia, à época, que ele fez uso de métodos condenáveis e corruptos para conseguir os votos dos delegados da Arena. A expressão mais usada era manus auri, isto é, mão de ouro, porque a ele se atribuía o método de comprar um a um os delegados e assim obter a vitória. A adesão dos delegados à sua candidatura não representaria uma preferência política, parecendo antes uma transação comercial. Ficou famosa e sempre foi objeto de anedotas a saída de Paulo Maluf pelo interior, de cidade em cidade, aliciando os delegados a Arena. Conta-se que certa vez ajudou a cercar um frango para comê-lo na casa do delegado de uma pequena cidade.

A sua vitória criou um choque na cúpula militar, porque o todo-poderoso e tríplice coroado João Baptista Figueiredo, que indicara Laudo Natel, sofrera uma derrota difícil de engolir. Mas, divididas as forças, viu-se que seria preferível deixar Maluf assumir, primeiro por ser um aliado da ditadura e depois porque sua eleição propagaria a versão de que não existia no País a ditadura criticada pela oposição.

Assim, por incrível que pareça, apesar de sua reputação, que naquela época já era das piores, Paulo Maluf assumiu o governo de São Paulo e depois tentou a Presidência da República, perdendo para Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Perdeu também nova eleição de governador, para Antonio Fleury Filho, mas em 1992 elegeu-se prefeito da cidade de São Paulo, deixando o cargo com alto índice de aprovação.

Depois, perdeu para Mário Covas a disputa eleitoral para o governo paulista e chegou a ser preso, em razão de várias ações por crime de improbidade administrativa. Finalmente, em 2008 ficou em quarto lugar na disputa para a Prefeitura paulistana.

Em 2006 foi eleito deputado federal, o mais votado no Brasil, e procurou manter-se no cargo, dada a garantia da imunidade parlamentar, com a qual por muito tempo logrou fugir ao cerco da Justiça por sua atuação, tantas vezes acusada de improbidade. Acabou condenado e, por causa da idade avançada, estava na sua casa, no Jardim América, em São Paulo, cumprindo pena domiciliar, quando a Câmara dos Deputados cassou o seu mandato.

*DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DA JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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