Paz para os cristãos

No período da Páscoa, os cristãos saúdam com frequência desejando a paz: "Paz a você!", "a paz esteja contigo!". Era assim que Jesus Cristo saudava os apóstolos nos encontros com eles, depois da sua ressurreição: "A paz esteja com vocês! Não tenham medo!" (cf Lc 24,36; Jo 20,19-26).

DOM ODILO P. SCHERER, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2015 | 02h04

Com essas palavras Jesus Cristo queria serenar o ânimo dos discípulos, muito assustados com o fato de verem o Mestre novamente, depois de ele ter sido crucificado e sepultado havia vários dias... Estavam apavorados também com o temor de que algo de pior também pudesse acontecer a eles, pois eram bem conhecidos como o grupo de seguidores do Nazareno. Jesus devolve-lhes a paz e a alegria, dando-lhes a certeza de estar novamente com eles.

Sabemos que essa paz durou pouco para os apóstolos, pois bem depressa desabaram sobre eles e os primeiros cristãos ameaças, prisões, torturas e mortes violentas. Tudo porque anunciavam o Evangelho de Cristo, partindo da sua ressurreição dentre os mortos. E assim continuou ao longo dos dois mil anos de cristianismo, durante os quais houve poucos momentos de paz e tranquilidade... Em alguma parte do mundo, sempre houve perseguições, repressão e martírio para os cristãos. O próprio Jesus havia advertido que a vida de seus seguidores não seria fácil. "O discípulo não é maior que o mestre: se perseguiram a mim, perseguirão também a vós" (Jo 15,20).

Atualmente, os cristãos são, de longe, o grupo religioso mais perseguido ou reprimido no mundo. Só para lembrar alguns fatos mais recentes: no último dia 2 de abril, alguns guerrilheiros do grupo Al Shebab, provenientes da Somália, entraram na Universidade de Garissa, no leste do Quênia, e escolheram especificamente os cristãos, deixando os demais ir embora. Foram mortas pelo menos 147 pessoas só porque eram cristãs.

Em março de 2015, houve o sequestro de 150 cristãos no noroeste da Síria; ainda em março, 14 cristãos foram mortos e mais de 70 ficaram feridos em consequência de dois atentados suicidas: numa igreja católica e numa evangélica.

Ainda em março passado, um grupo entrou num convento e, entre outras violências, estuprou uma freira idosa, de 72 anos de idade, no Estado de Bengala Ocidental, na Índia. E são constantes as notícias sobre atentados contra igrejas cristãs na Nigéria, com numerosas vítimas; no Iraque, os mártires cristãos são numerosos, por conta do avanço do grupo Estado Islâmico. E o mundo assistiu horrorizado ao degolamento de um grupo de cristãos na Líbia, também em março. No Egito, no Sudão, no Congo e na Nigéria foram muitas as igrejas cristãs atacadas, com numerosas vítimas. Não é diferente no Paquistão.

No próprio domingo da Páscoa dos cristãos, 5 de abril, duas igrejas foram atacadas e incendiadas na Síria pelo grupo radical que domina boa parte daquele país. Mas refresquemos um pouco a memória, para não esquecer os numerosos mártires da guerra civil espanhola, padres, freiras e leigos, trucidados pelo único motivo de serem cristãos; nem devem ser esquecidos os inumeráveis cristãos que foram vítimas dos regimes totalitários do século 20, os quais sempre viram na Igreja Católica e nos cristãos fiéis a ela um atrapalho para suas pretensões de poder total. E só para lembrar, vamos retroceder um século na História, para encontrar mais de um milhão e meio de cristãos da Armênia, mártires de repressão político-religiosa, um verdadeiro genocídio, ainda mal reconhecido.

Não ignoro que também há perseguição, repressão e martírio em relação a grupos religiosos, não cristãos. Eles merecem meu respeito e solidariedade. Minha reflexão, no entanto, refere-se à atual repressão sofrida pelos cristãos em várias partes do mundo.

No conceito cristão, martírio não é suicídio, nem vida perdida em confronto com adversários; menos ainda, vida sacrificada por motivos ideológicos, em ato de violência contra outras pessoas. Mas é morte sofrida por causa das convicções religiosas.

Os mártires cristãos, para serem assim reconhecidos pela Igreja, não devem manifestar ódio ou desejo de vingança contra quem os martiriza, mas, a exemplo de Cristo na cruz, perdoar: "Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem" (Lc 23,34). A Igreja valoriza a fé heroica e a fortaleza dos seus mártires. Existe até certa convicção formada entre os cristãos de que, quando não há mártires durante um período, isso poderia significar que as convicções cristãs ficaram diluídas e perderam vigor, acomodando-se às circunstâncias e ao ambiente: deixaram de ser "sal da terra e fermento na massa" (cf Mt 5,13).

Se assim é, por que motivo, então, preocupar-se com as perseguições e os martírios que os seguidores de Cristo sofrem? Os cristãos submetidos a violências teriam, talvez, a possibilidade de fugir, emigrar, mudar de religião, continuar cristãos deixando-se explorar como escravos; ou então, mantendo firme a sua fé, perder a vida. No entanto, isso não pode ser exigido de ninguém. Atrás dos martírios há um problema político-ideológico de violação grave dos direitos humanos, diante do qual, em boa parte, a comunidade internacional está se mantendo surda, calada e de braços cruzados. Nem mesmo tenho conhecimento de alguma manifestação de autoridades brasileiras a respeito desse drama evidente.

A liberdade de consciência e a liberdade para professar a própria fé, ou de não ter fé ou religião alguma, deveriam ser garantidas a todos. Trata-se de um direito humano fundamental, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Infelizmente, essa liberdade é, talvez, vista como secundária e, por isso, sacrificada diante de interesses estratégicos "maiores"...

Cálculos perversos levam a violências sempre maiores. Não haverá paz verdadeira enquanto a liberdade religiosa não for respeitada e assegurada a todas as pessoas.

* Cardeal-arcebispo de São Paulo

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