Pedrinho, Bernardo e o espírito do nosso tempo

O pequeno MC Pedrinho está bombando nas redes sociais com Dom Dom Dom, música que faz referência a sexo oral. (MCs são designados os cantores de funk, os "mestres de cerimônias", responsáveis pela condução e ritmo da festa). O sucesso desse menino de 11 anos deriva não só do fato de enveredar pelo gênero que anima bailes das galeras jovens das periferias, mas pelo inusitado feito de fazer ecoar, com seu timbre fino de voz, uma letra cujo fim do refrão é impublicável. A dissonância que se poderia enxergar entre a idade do artista e a carga de significados do funk pesadão parece proposital para chocar ouvidos menos acostumados às nuances da linguagem desse gênero. Pedro Maia faz sucesso. Há dias, outro menino, também de 11 anos, Bernardo Boldrini, foi assassinado pela madrasta com uma injeção letal no braço esquerdo. Sobre o corpo depositado numa cova foi jogada soda cáustica, para acelerar o processo de decomposição. Os garotos, da mesma idade, de origens e classes sociais distintas - Pedrinho, filho de uma doméstica; Bernardo, filho de médico - traduzem o espírito do tempo em nossos trópicos.

Gaudêncio Torquato*, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2014 | 02h06

O embalo do primeiro se deve às redes sociais, que lhe proporcionaram mais de 1 milhão de acessos no YouTube, canal aberto às invenções, ações espetaculares, performances curiosas, movimentos escatológicos e assemelhados de tantos quantos intencionam sair de casulos para adentrar os vãos do Estado-espetáculo. Seu funk, na esteira da modalidade que a ginga carioca recriou nos morros para enaltecer comandos de gangues, drogas e armas, não lembra em nada o swing que James Brown adotou, nos idos de 1960, para tornar o estilo dançante. Mas o caráter desse ciclo não tão heroico que estamos vivendo faz do menino Pedrinho uma celebridade, tirando-o dos arredores da Vila Maria, onde mora, para ganhar os aplausos e a boa grana do show business.

O saracoteio do funqueiro mirim nas ondas da música erótica, letras sem sentido e batidas rápidas, por uns considerada lixo eletrônico de apologia ao crime, se encaixa na "maré do niilismo", que Ortega Y Gasset já vislumbrava em meados da terceira década do século 20. Parafraseando o apocalíptico pensador espanhol, para quem "sem um novo poder espiritual" será inevitável uma catástrofe, esse tipo de manifestação cultural corrobora a sensação de que o "imoralismo avança" puxando uma legião de pregadores da extrema vulgaridade.

Sementes do declínio moral se espalham nas searas dos costumes, na esteira do embrutecimento da vida cotidiana, simbolizado por formas de comportamento antissocial, como uso de drogas, criminalidade e violência. Os valores tradicionais fenecem. Os conflitos se expandem. Encolhe-se o "capital social", conceito que, na visão do cientista político Samuel Huntington, é a equação da confiança e do respeito, dos direitos e do convívio harmonioso entre grupos.

Tal leitura, que se aplica aos mais diferentes Estados democráticos, ganha ênfase por aqui em função do poder corrosivo que, nos últimos tempos, devasta a paisagem institucional. A política escancara uma torrente de escândalos. A gestão pública perde eficácia. A dinâmica social puxa contingentes de baixo para morar nos andares de cima da pirâmide, mas deixa para trás valores tradicionais que formam a argamassa da cidadania, como solidariedade, respeito aos velhos e crianças, lealdade, amor ao trabalho, culto à família, verdade, honestidade, senso do dever. Muitas leis entram no lixo todos os dias. Dribles e firulas dão curvas na estrada da ordem. A educação não prima em valorizar critérios que poderiam ajudar os jovens a preservar o corpo moral.

No deserto dos valores, o nivelamento cultural tende a se dar por baixo. Os comportamentos obedecem à liturgia da mimese. Imitam-se gostos, adereços, gestos, danças, roupas de atores e atrizes de novelas. Há propensão para um "fazer extravagante", forma de chamar a atenção, algo como trejeitos e esgares que dão medo ao próprio Drácula. No diapasão da arte musical, as variações melódicas ganham a escala de uma "nota só". A frase gritada (ou urrada?) é melhor que o texto cantado. A estética capilar, esquisita e policromática, abriga logotipos de cabelos espetados com cola, indicação de desejo de exibir um "diferencial de imagem". Esse palco leva as galeras à catarse. O histerismo anima as festas.

Por isso mesmo, Pedrinho está bombando. Sob os cuidados de um empresário que comanda seus passos. Afinal, $$$$$ é o que interessa. O menino irá longe? A mãe quer ver o rebento coberto de aplausos e de cofrinho cheio. Mas garante não gostar (?) que ele cante o refrão pornográfico em sua frente. Já o Ministério Público (MP) lembra que ele pode cantar o que quiser, sob endosso de uma especialista em sexualidade, para quem "meninos na idade do Pedrinho já falam de sexo entre si". E assim rola o show business.

Bernardo Boldrini, o outro menino, era problemático. É o que se dizia dele. O pai não lhe dava atenção. A mãe biológica, segundo a Polícia, se matou em 2010. A madrasta, diz-se, estaria cobiçando a herança. Enganou o enteado levando-o para fazer uma consulta com uma "mãe de santo". A linguagem do ritual é de arrepiar. Santo, benzer, rezar. Palavras que expressam Hosana nas alturas para salvar o menino. Que desfaçatez. Armava-se a trama do assassinato. Chama a atenção o fato de o garoto ter pedido o apoio do MP para ser acolhido por outra família. Não foi atendido. Tudo isso entra na arena da banalização da maldade, reforçada por ações (inações) de órgãos de defesa da sociedade, governantes e representantes. Como se explicam, por exemplo, os 3 mil casos de pessoas enterradas como indigentes em São Paulo, apesar de portarem documento de identidade? Como se explica o despacho de levas de haitianos para São Paulo e outras cidades, sob decisão unilateral do governo do Acre? Onde estão os entes governativos?

O espírito do nosso tempo é de trevas!

*Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação. twitter@gaudtorquato 

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