Perdendo o fôlego

A recuperação do emprego que se observou se deveu à geração de vagas de menor qualidade, o que afeta renda e consumo

O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2018 | 03h00

A recuperação do mercado de trabalho dá sinais de que está perdendo o fôlego. Depois de ter alcançado 13,7% da força de trabalho no primeiro trimestre do ano passado – seu ponto mais alto desde que a crise gerada pela desastrosa administração de Dilma Rousseff começou a destruir postos de trabalho –, a taxa de desocupação passou a cair, mas no trimestre móvel de janeiro a março de 2018 voltou a crescer. Ficou em 13,1%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com crescimento de 1,3 ponto porcentual em relação ao trimestre outubro-dezembro de 2017. Entre esses dois períodos, 1,4 milhão de trabalhadores foram incorporados à massa de desempregados. A população desocupada nos três primeiros meses do ano chegou a 12,3 milhões de pessoas.

O aumento do número de desempregados no período pode ser atribuído, em parte, ao comportamento sazonal do mercado de trabalho. Nos últimos meses do ano, trabalhadores são contratados para que as empresas dos diferentes segmentos da economia possam atender ao aumento do consumo típico dessa época. Nos meses seguintes, há um ajuste da mão de obra à atividade menos intensa, o que tende a elevar os índices de desemprego.

O aumento da taxa de desocupação, maior do que o esperado por analistas do mercado de trabalho, que já levavam em conta o impacto dos fatores sazonais, parece estar ligado à perda de dinamismo da atividade econômica. As projeções para o desempenho da economia ao longo de 2018 vêm se reduzindo gradualmente nas últimas semanas, em razão das incertezas que caracterizam o cenário político. E os dados sobre emprego divulgados pelo IBGE tendem a, no mínimo, sustentar essas projeções, quando não a estimular previsões mais pessimistas.

Além de seu indicador mais óbvio, que é o aumento da taxa de desocupação, as dificuldades para a recuperação mais vigorosa do mercado de trabalho são visíveis em outros dados da Pnad Contínua. A qualidade do emprego, por exemplo, continua a se deteriorar. Entre o último trimestre de 2017 e os primeiros três meses deste ano, foram fechados 408 mil postos de trabalho com carteira assinada, aqueles que oferecem melhores condições para os empregados e geralmente são mais bem remunerados.

Na comparação com igual período do ano passado, o total de empregados no setor privado sem carteira assinada – ou seja, sem as garantias e benefícios assegurados por lei aos trabalhadores formais –aumentou 5,2% e o total de trabalhadores por conta própria cresceu 3,8%. Já o número de trabalhadores empregados com carteira diminuiu 1,5% (em números absolutos, a redução foi de 493 mil vagas).

Esses números mostram que a recuperação que se observou a partir do início do ano passado se deveu à geração de empregos de menor qualidade. Não há recuperação nítida no mercado de trabalho formal. “O que está havendo é desaceleração da perda”, observou o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo. Além de implicar melhora qualitativa do mercado de trabalho, o emprego com carteira assinada assegura ao trabalhador maior estabilidade financeira, “um passaporte para o crédito”, como diz Azeredo. Mas ele não aumenta na velocidade desejável.

Quanto à renda, os indicadores não são animadores. O rendimento real médio habitual das pessoas ocupadas aferido pela Pnad Contínua no primeiro trimestre deste ano, de R$ 2.169, é exatamente igual ao do período correspondente do ano passado. A massa de rendimento real habitual mostrou pequeno crescimento de 1,8% na comparação anual – obviamente decorrente da redução da taxa de desocupação nessa comparação –, mas queda de 1,8% em relação ao trimestre anterior.

Sem aumento expressivo de renda, o consumo tende a se estagnar ou crescer pouco, o que afeta o desempenho de outros indicadores da atividade econômica, já influenciados pelo quadro político incerto.

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