Perguntas a respeito do bem e do mal

Na vida, há decisões e comportamentos acertados, que merecem reconhecimento e aplauso e proporcionam paz à consciência, enquanto outras despertam a repulsa e a reprovação das pessoas e deixam o coração intranquilo.

Dom Odilo P. Scherer*, O Estado de S.Paulo

12 Março 2016 | 03h00

No dia 5 de março correu a notícia do assassinato de quatro freiras por um terrorista, no Iêmen. Duas eram de Ruanda, uma da Índia e uma do Quênia. Eram Missionárias da Caridade, uma congregação fundada por Madre Teresa de Calcutá para se dedicar aos mais pobres entre os pobres; e era bem isso que as religiosas católicas assassinadas faziam no Iêmen, um pequeno país muçulmano: cuidavam de pessoas abandonadas, idosas ou com vários tipos de deficiência.

O ato violento foi qualificado como brutal, vil e diabólico; o mínimo bom senso leva a concluir que em atos semelhantes não há nada de nobre e belo que enalteça a qualidade humana de quem os praticou. Talvez até houvesse motivações políticas, sede de vingança ou desejo de chamar a atenção de potências interessadas na guerra civil daquele país; talvez tenha sido por fanatismo xenófobo e religioso, só porque aquelas religiosas católicas estrangeiras faziam algo de bom num contexto social caótico e de violência generalizada.

Elas estavam ali simplesmente por amor ao próximo, sem fazer proselitismo religioso, sem intenções políticas ou econômicas, nem mesmo tinham a pretensão de salário; viviam em pobreza voluntária, compartilhando a vida dos pobres e rejeitados do lugar. Estavam cientes do perigo que corriam, pois meses antes sua pequena capela já havia sido incendiada. Continuavam lá por escolha, para servir ao próximo nas situações extremas de abandono e insegurança, em que cada um tenta salvar-se como pode e os que não podem são abandonados e esmagados pelo rolo compressor da violência.

A atitude delas foi heroica? Talvez. Mas elas não pretendiam ser heroínas, nem mulheres de ferro, corajosas a ponto de enfrentarem qualquer risco. Eram frágeis como os pobres e rejeitados assistidos por elas. O que faziam tinha uma única motivação: a prática do bem, por amor a Deus e ao próximo.

Cabe ainda alguma dúvida sobre o que foi mais belo e louvável: o ato insano de quem descarregou seu ódio e sede de vingança ou a atitude das missionárias assassinadas? É difícil imaginar que alguém louve a ação violenta e reprove a atitude das Missionárias da Caridade. A prática do bem e da virtude enobrece quem a faz e recebe o reconhecimento das outras pessoas. O bem é belo e enobrece. A prática do mal é moralmente feia, merece a reprovação e deixa marcas depreciativas em quem o faz.

Parece que estou dizendo o óbvio, mas é bom que nos perguntemos se isso ainda vale. Ou nem sabemos mais o que é bem e o que é mal? O certo e o errado? Talvez seja este um dos problemas do nosso tempo: nada vale e tudo vale. O que é visto como um bem por uns é interpretado como um mal por outros.

O que faz com que uma ação seja boa ou seja má? Embora a questão não seja totalmente objetiva e no julgamento das ações concorram muitos fatores, é certo que o bem e o mal permanecem contraditórios. Nada pode ser bom e mau ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. Temos ainda parâmetros para chamar de bom o que é bom? E de mau o que é mau?

Passemos a outro cenário. O Brasil vive diversas crises ao mesmo tempo: política, econômica, social... A meu ver, esta situação de crise é resultado, sobretudo, de uma longa e profunda crise moral. Há tempos vivemos uma ambiguidade ética na vida pública e privada e chegamos agora a um momento crucial, em que se faz necessário rever algo na cultura que vamos edificando. Não é mais possível ir adiante com esquemas corruptos na política e na administração pública. Além disso, o exemplo que vem de cima tende a ser padrão de referência para comportamentos e decisões privadas dos cidadãos. Necessária é uma séria avaliação e uma tomada de consciência, para uma nova atitude.

A presente geração tem a oportunidade de realizar uma mudança nos padrões de comportamento no que se refere à honestidade pública, à lisura na administração do bem comum, à sensibilidade em relação aos sofrimentos do próximo. A crise econômica, misturada com a crise política e moral, acaba pesando mais duramente sobre as pessoas que já sofrem e são deserdadas do bem comum.

Os serviços públicos de saúde, educação, saneamento básico e segurança pública sofrem imediatamente as consequências negativas da crise econômica. E a perda do emprego acaba empurrando mais gente para a angústia, a pobreza e a miséria.

Voltemos às perguntas: é belo e louvável acumular riqueza desonesta? Desviar dinheiro público para o benefício privado? Isso não mexe em nada na consciência? Dorme tranquilo quem se apropria de bens que não lhe pertencem? Que são do Estado, destinados a promover o bem comum? Consegue olhar para as filas de doentes, rostos sofridos, nos consultórios do SUS, sem sentir calafrios e dores na alma, quem se apropriou de recursos públicos, que deveriam atender aos serviços básicos de saúde da população?

Haverá, talvez, quem continue a achar que é bobo quem tem a ocasião e não a aproveita... Será que esta lógica do jeitinho maneiro merece louvor e aprovação, mais que a administração honesta e conscienciosa do bem alheio?

Parece que temos certa timidez para chamar honesta a ação honesta e desonesta a que é desonesta. Os pequenos desvios morais abrem as portas à grande corrupção. Não seria hora de nos perguntarmos sobre o que é belo no agir humano e o que é reprovável? De chamar bem o que é bem e mal o que é mal? Ou se corrompeu também o nosso senso moral?

Não é mais possível ir adiante com esquemas corruptos na política e na administração pública

*Dom Odilo P. Scherer é cardeal-arcebispo de São Paulo

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