Perigos no vasto mundo

Durante quatro anos a presidente Dilma Rousseff atribuiu os males do Brasil à economia internacional, recusando teimosamente reconhecer os erros de seu governo. Estava errada e assim continua, mas estará um pouco mais justificada, neste ano, se olhar com preocupação o cenário global. O maior mercado importador de commodities brasileiras, a China, está menos dinâmico. Os preços internacionais de minérios e de produtos agrícolas caíram desde o ano passado e dificilmente poderão recuperar-se este ano. A economia da zona do euro se recupera lentamente e de forma ainda insegura. Nos Estados Unidos, principal motor econômico do mundo, a produção deve continuar aumentando, assim como a criação de empregos, mas numa trajetória sujeita a tropeços. A insegurança quanto à evolução das principais potências acaba refletida nos mercados financeiro e cambial. O efeito é quase sempre um pouco mais de complicação para o Brasil.

O Estado de S.Paulo

31 Março 2015 | 02h04

O quadro americano ficou um pouco mais incerto nesta semana, com indicadores apontando em direções diferentes. Em fevereiro, os preços ao consumidor subiram 0,2%, mesmo sem encarecimento dos combustíveis. Essa alta, maior que a esperada, foi apontada por analistas como um sinal de economia aquecida. Esse diagnóstico foi reforçado pelos números do setor imobiliário. O aumento mensal de 7,8% das vendas de imóveis residenciais, o maior em sete anos, foi vinculado à continuada melhora do mercado de emprego.

No entanto, a notícia da redução de 1,4% nas encomendas de bens duráveis, incluídos máquinas e equipamentos, soou como alerta e afetou as bolsas. A previsão do mercado era de expansão de 0,2% e o número negativo foi apontado como um sintoma de perda de vigor dos negócios. O banco Morgan Stanley havia estimado para o primeiro trimestre um Produto Interno Bruto (PIB) 1,2% maior que o de um ano antes. A estimativa foi reduzida para 0,9%. Nas contas do Barclays, o corte foi pouco significativo, de 1,3% para 1,2%.

Para o governo brasileiro, qualquer notícia sobre a economia americana, positiva ou negativa, pode justificar alguma preocupação. Indicadores de crescimento vigoroso e de rápida criação de empregos tornam mais provável um aumento dos juros básicos nos Estados Unidos nos próximos meses. O consequente aumento do dólar elevará as pressões inflacionárias e complicará o ajuste dos fundamentos econômicos do Brasil. O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, continua confundindo os mercados com sua sinalização. O aumento de juros, além de mexer no mercado cambial, tornará mais difícil o acesso ao crédito internacional, complicando tanto as operações do governo quanto os negócios das empresas. Mas o crescimento americano indica também maior impulso à recuperação mundial e maiores oportunidades de exportação. Os brasileiros deveriam festejar notícias desse tipo, mas a indústria nacional provavelmente será incapaz, por falta de competitividade, de aproveitar de forma plena a dinamização dos mercados externos.

Enquanto a indústria estiver empenhada em se tornar mais competitiva, a receita cambial brasileira continuará dependendo principalmente das vendas de commodities. O País continuará muito sujeito à demanda chinesa. Mas a economia da China, embora ainda seja uma das mais dinâmicas do mundo, avança hoje bem mais lentamente do que nas últimas duas décadas. O índice dos gerentes de compras de fevereiro, um dos sinalizadores do ritmo de atividade, caiu ao menor nível em 11 meses. Apesar disso, o Banco de Desenvolvimento da Ásia anunciou uma estimativa de crescimento chinês de pelo menos 7% em 2015 e 2016. O Fundo Monetário Internacional projeta uma desaceleração para 6,5% em 2016, como consequência dos ajustes iniciados pelo governo.

Sem poder contar com o mercado interno para puxar o crescimento, o governo brasileiro deveria pôr as fichas na exportação. Mas passou anos enfraquecendo a indústria com seus erros e se metendo numa sinuca por sua teimosia.

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