Persistência no erro

Que ganhos terá o Brasil se, como prometeu a presidente Dilma Rousseff no discurso com que iniciou o segundo mandato, seu novo governo der à América do Sul a prioridade que "se traduzirá no empenho em fortalecer o Mercosul" e outras organizações regionais? Do ponto de vista comercial, serão poucos - se não houver perdas. Dados recentes sobre as trocas comerciais com a Argentina, principal parceiro do País no Mercosul, sugerem que, mantidas as condições atuais, será cada vez menor a fatia dos produtos brasileiros no mercado argentino e o superávit que se vem registrando desde 2004 poderá virar déficit já em 2015.

O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2015 | 02h04

No ano passado, como mostrou a empresa de consultoria de Buenos Aires Abeceb.com, o superávit comercial do Brasil com a Argentina encolheu 95,5%, ficando em US$ 141 milhões (em 2013, tinha sido de US$ 3,15 bilhões). Dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) do Brasil apontam um superávit ligeiramente menor, mas confirmam o notável encolhimento do saldo do País no comércio com seu vizinho do Mercosul.

O resultado do ano passado é o pior desde que o governo do PT - colocando suas escolhas ideológicas acima dos interesses do País - estabeleceu relação preferencial com o governo argentino dos Kirchners (primeiro com Néstor, depois com sua esposa Cristina). Até 2003, quando se iniciou essa parceria no primeiro ano dos governos do PT e dos Kirchners, o Brasil registrou déficits no comércio com a Argentina. Desde 2004, porém, vem acumulando superávits. O saldo favorável ao Brasil chegou a alcançar US$ 5,8 bilhões em 2011, caiu para US$ 1,55 bilhão em 2012 e subiu para US$ 3,15 bilhões em 2013, despencando no ano passado.

É notória a falta de simetria das ações do governo do PT e do governo Kirchner no que se refere às relações comerciais entre os dois países. À medida que o governo brasileiro vai tolerando de maneira injustificável sucessivas medidas protecionistas da Argentina - em tese destinadas a barrar produtos de todas as origens, mas que afetam mais duramente os produtos fabricados no Brasil -, a presidente Cristina Kirchner e os responsáveis pela política comercial argentina endurecem ainda mais as regras para a entrada de bens originários do outro lado da fronteira e facilitam a importação de produtos de outra origem, em especial da China.

A crise que paralisa a economia argentina e faz cair rapidamente os principais indicadores sociais do país tem sido utilizada pelo governo como principal argumento para barrar a entrada de produtos estrangeiros, de modo a proteger a produção local. Mas é uma barragem nitidamente seletiva, como mostram dados da origem das importações do país. O Mercosul que Dilma quer reforçar deixou de ser o principal parceiro comercial da Argentina. Enquanto caem as importações de bens originários dos demais países do Mercosul, cresce a entrada de produtos vindos da Ásia, que já é o principal parceiro da Argentina.

Isoladamente, a China já é o segundo maior comprador de produtos argentinos (o Brasil continua sendo o principal destino dos bens exportados pela Argentina) e tornou-se também o segundo maior fornecedor do país (igualmente atrás do Brasil). O crescimento do papel da China no comércio exterior argentino decorre, em boa parte, das restrições impostas pelo governo Kirchner à entrada de produtos brasileiros, que vão de controles administrativos rigorosos até a imposição pura e simples de cotas.

Mas é consequência também da sofreguidão com que o governo Kirchner se lançou na busca de capitais chineses para compensar, ainda que parcialmente, o fato de que a Argentina não tem acesso regular ao mercado financeiro internacional por não ter conseguido regularizar sua dívida externa. Para isso, Kirchner reconheceu a condição de economia de mercado da China e concordou em aliviar as barreiras para a entrada de produtos chineses.

Nesse quadro, é difícil de imaginar que a prioridade anunciada por Dilma possa ter algum resultado positivo para o Brasil.

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