Persistente queda da inflação

Não são poucos os economistas de instituições financeiras privadas que preveem IPCA abaixo de 4% neste ano, o que deve propiciar maior alívio da política monetária

O Estado de S.Paulo

23 Abril 2017 | 05h35

Em meio a indicadores ainda frágeis de recuperação da atividade econômica e a incertezas políticas alimentadas pelas revelações da Operação Lava Jato e pelo comportamento errático da base do governo no Congresso – da qual depende a aprovação das reformas que assegurem as condições para o crescimento –, persistem sinais estimulantes indicando que as coisas podem melhorar. A inflação, já baixa para os padrões dos últimos anos, continua a perder força. Não mais parece surpreendente que feche o ano abaixo da meta de 4,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional – e que baliza as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) –, fato que não ocorre desde 2009.

A medição mais recente divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reafirma a tendência de queda da inflação na variação acumulada em 12 meses. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) de abril – cujo período de coleta se situa aproximadamente entre os dias 15 do mês anterior e do mês de referência – aumentou 0,21%, um pouco mais do que a alta de 0,15% em março, mas o resultado acumulado de 12 meses ficou em 4,41%, abaixo, portanto, da meta. Além disso, a alta do mês é a menor registrada pelo IPCA-15 de abril desde 2006, quando subiu 0,17%. Naquela época, a demagogia lulopetista ainda conseguia vender aos desavisados seu insustentável projeto de crescimento com inflação baixa, que desmoronou na gestão Dilma Rousseff e lançou o País na mais profunda recessão em muitas décadas.

É notável a queda da inflação desde o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República. Em março de 2016, por exemplo, a inflação acumulada de 12 meses alcançou 9,39%; em abril, o último mês completo sob o governo Dilma, foi de 9,28%. Ela vem caindo desde maio do ano passado e, em março último, ficou em 4,57%, ainda pouco acima da meta. No IPCA-15 já ficou abaixo e a tendência é que assim permaneça até o fim do ano. Não são poucos os economistas de instituições financeiras privadas que preveem IPCA abaixo de 4% neste ano, o que deve propiciar maior alívio da política monetária.

Foram dois os principais fatores que pressionaram o IPCA-15, ambos de peso expressivo no orçamento das famílias. Depois de queda de 0,08% em março, o grupo alimentação e bebidas aumentou 0,31% em abril. As despesas com saúde e cuidados pessoais, por sua vez, que tinham aumentado 0,48% em março, subiram ainda mais em abril, com alta média de 0,91%. Juntos, esses dois grupos responderam por quase toda a alta do IPCA-15 de abril.

Na avaliação do Banco Central, no entanto, o processo de desinflação está disseminado pelos diferentes grupos de preços que compõem o IPCA. No caso da energia, exemplo apontado por vários analistas de índices de preços, cobranças indevidas nas tarifas dos meses anteriores estão sendo devolvidas, fato que terá impacto mais notável sobre o IPCA fechado de abril (em março, a energia subiu 4,43%).

Quanto à atividade econômica, algumas indicações ainda são preocupantes. Em exposição que fez na quinta-feira passada em Washington, em evento organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana, mostrou dados que mostram a persistência de alto nível de ociosidade na economia brasileira.

Mesmo assim, a indústria, setor mais afetado pela crise, começa a recuperar rentabilidade – custos estáveis e preços em ligeiro crescimento –, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria, o que pode estimular a produção e, mantida essa situação, os investimentos.

Projeções preliminares sobre o desempenho global da economia têm trazido resultados otimistas. Há dias, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostrou crescimento de 1,3% em fevereiro, na comparação com janeiro. O Monitor do PIB publicado pela Fundação Getúlio Vargas constatou alta ainda mais expressiva, de 0,78% em fevereiro sobre janeiro.

Sinais de alerta, porém, vêm do exterior e, sobretudo, do ambiente político doméstico. Sem reformas, o crescimento estará ameaçado.

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