Petróleo e política americana

O catastrófico vazamento de petróleo no Golfo do México poderia ter sido uma excelente oportunidade para o presidente Barack Obama promover um dos itens de maior destaque em sua campanha eleitoral: a limitação das emissões de dióxido de carbono (CO2) por meio de créditos de carbono, negociáveis no mercado (cap and trade). Como ficou patente, além da queima de derivados de petróleo ser uma das maiores fontes de poluição, a sua exploração em águas profundas pode causar desastres de proporções gigantescas. Os EUA, como outros países, têm que se preparar para uma era pós-petróleo, investindo mais em biocombustíveis, energia solar, eólica, das marés e hidreletricidade.

, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2010 | 00h00

A ironia é que, nos EUA, o desastre da plataforma Deepwater Horizon da BP está produzindo o contrário do que se poderia esperar: a oposição republicana acirrou os ataques ao presidente, como uma vingança pelas acerbas críticas feitas pelos democratas ao ex-presidente Geoge W. Bush quando do furacão Katrina, em 2005. Além disso, a aprovação da reforma da saúde pelo Congresso, uma vitória histórica de Obama, provocou uma intensa mobilização de grupos conservadores ou daqueles que se intitulam libertários, aglutinados no movimento do Tea Party.

A isso se junta o fermento eleitoral, tendo em vista o pleito de novembro para a escolha dos membros da Câmara dos Representantes, de cadeiras no Senado e de governadores estaduais. Claramente, os democratas estão na defensiva, mesmo aqueles que têm criticado a Casa Branca por não ter tomado, de início, uma atitude mais decidida no combate aos danos causados por um vazamento de petróleo que parece interminável.

Como se não bastasse, a demonizada BP está entre as gigantes do petróleo anteriormente convidadas a prestar assessoria ao Senado na elaboração de uma nova lei para o clima e para energia. A BP, antiga British Petroleum, vinha, antes do fim de abril deste ano, preparando-se para mudar outra vez de nome. Tendo investido em energia solar e outras alternativas energéticas, a companhia britânica lançou uma campanha para se tornar conhecida como Beyond Petroleum.

Isso se torna agora particularmente irritante para os conservadores, que se opõem às iniciativas destinadas à criação de créditos de carbono, que, a seu ver, afetariam a competitividade da indústria americana. "Ninguém explorou tão bem a iconografia do falso ambientalismo quanto a BP", escreveu Daniel Foster, na National Review (16/6), conhecido órgão conservador. O articulista aconselha os leitores a não se deixar enganar pela publicidade verde da companhia, que "não tem sido mais que uma companhia petrolífera tremendamente bem-sucedida na geração de lucros".

A imagem da BP está literalmente na lama, apesar de a companhia ter concordado em criar um fundo de US$ 20 bilhões para pagar indenizações às pessoas e empresas prejudicadas pelo vazamento e em não distribuir dividendos este ano. Como os maiores acionistas da BP são cidadãos ou fundos de investimento britânicos, o primeiro-ministro David Cameron chegou a dar um telefonema para o presidente Obama, na tentativa de acalmar a Casa Branca.

Pressionado em várias frentes, o presidente dos EUA viu-se obrigado a um recuo estratégico. Em um discurso de 17 minutos, transmitido pela TV, nenhuma menção foi feita aos créditos de carbono. Os senadores John Kerry (democrata) e Joe Lieberman (independente) continuam lutando por uma legislação para conter a emissão de gases de efeito estufa. Mas, aparentemente, o tema ficará para depois das eleições de novembro.

Esta é uma má notícia para todos aqueles que se preocupam com questões ecológicas. Os EUA, que não ratificaram o Protocolo de Kyoto e que tiveram uma atuação aquém da expectativa na Conferência de Copenhague sobre Mudanças Climáticas , estão entre os maiores emissores de CO2 do mundo. Se adotassem uma legislação mais avançada contra a poluição, isso talvez pudesse servir de indução para que a China, hoje a campeã mundial nessa categoria, começasse a pensar seriamente no assunto.

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