PIB - a caravela, os ventos e o(a) comandante

O crescimento do produto interno bruto (PIB) foi de novo frustrante, de apenas 2,7% em 2011. Por quê? Há quem aponte o aperto creditício adotado pelo governo no início do mesmo ano. Com a subida da taxa básica de juros de janeiro a julho, esse aperto compôs uma dupla voltada para desacelerar a economia, que encerrou 2010 numa velocidade que sinalizava o risco de inflação além do teto da meta do Banco Central.

ROBERTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

15 Março 2012 | 03h09

Se essa fosse toda a história, teria havido um erro na dosagem voltada para trazer o PIB para um crescimento entre 4% e 5% no ano. A frustração veio da diferença entre esse objetivo e os 2,7% citados.

Em 2011, contudo, a situação da economia só piorou, mesmo no terceiro trimestre, cujo PIB caiu 0,1% relativamente ao do segundo, quando a atual crise na zona do euro se tornou mais forte. Aqui, seus efeitos vieram de dois elos que ligam o Brasil à economia internacional. O primeiro é o do comércio, pois tal crise prejudicou exportações do Brasil e parte do seu PIB. O segundo veio de notícias sobre a crise que se difundiram pela mídia, levando consumidores e empresários brasileiros a se retraírem nas suas aquisições de bens e serviços. Bancos também integraram essa cadeia de efeitos, contendo a expansão do crédito.

Focado nessa diferença entre a meta do governo e o resultado obtido, vejo a crise na zona do euro como importante na explicação do pífio crescimento do PIB em 2011. Realçando essa razão externa, há também o fato de que o crescimento da economia mundial de meados até o fim da década passada foi o principal fator a impulsionar a economia brasileira no período. E, excepcionalmente, foi uma crise lá fora que levou o PIB de 2009 a uma taxa negativa. Assim, nos mares da economia mundial, quando os ventos são bons, o Brasil navega a contento; caso contrário, seu PIB sofre.

O País não se pode conformar com isso, precisa tornar o nosso barco mais eficiente no seu desempenho e movido por força própria mais forte. Aliás, isso ocorreu com as próprias caravelas. Primeiramente, foram superadas por veleiros maiores e com mais mastros. Depois, vieram os grandes barcos motorizados. E tudo isso exigiu mais investimentos, inclusive em avanços tecnológicos.

Sem isso o Brasil seguirá crescendo abaixo de seu potencial e a ampliação deste também fica prejudicada quando os ventos externos são fracos. Na linguagem dos economistas, é indispensável expandir a taxa de investimento da economia. Ou seja, aquela proporção do seu PIB voltada para ampliar a capacidade produtiva do País, como em infraestrutura, fábricas e empreendimentos agropecuários. Cabe também investir mais em serviços, como em educação, saúde e progresso tecnológico.

Na China essa taxa alcança perto de 40% do PIB e com ela por muitos anos o país cresceu perto de 10% ao ano; na Índia, é próxima de 30% e o seu crescimento ficou perto de 8%. Aqui, foi de apenas 19,3% em 2011, está por aí desde 2008 e iniciou este século em 16,8%. Essas taxinhas sintetizam as razões pelas quais o País continua sem condições de navegar melhor.

A ampliação da poupança interna também teria importância crucial para o Brasil ficar menos dependente de recursos externos. Eles não chegam na medida necessária e, em qualquer caso, são remunerados com parcela do nosso PIB. Aliás, para tapar o buraco de suas contas externas o Brasil se regozija com a entrada de investimentos estrangeiros. Mas pouco se fala da remuneração adicional a que isso leva. A propósito, seria conveniente realçar no Brasil o conceito de renda nacional bruta (RNB), ou seja, a parcela do PIB do País que efetivamente cabe aos seus cidadãos. No PIB se conta o que foi produzido dentro do nosso território, o que inclui a parcela devida a investidores e credores externos. Contada essa parcela, nossa RNB em 2011 foi 1,8% menor que o PIB. Em valores, o vazamento foi de R$ 78,1 bilhões (!) e sem ampliação da poupança nacional tenderá a crescer.

Tocando o barco, como agiu o comandante Lula? Ele foi muito favorecido pelos bons ventos da economia mundial nos seus dois mandatos, mas atribuiu a si mesmo todo o mérito pelo melhor desempenho do PIB. E não reconheceu que tomou o navio em melhor estado do que quando recebido por antecessores pós-Sarney. Mesmo assim, pelo barco quase nada fez no que diretamente lhe cabia, a poupança e o investimento públicos, pois optou pelo assistencialismo e pelo afago ao corporativismo e ao patrimonialismo que giram em torno do Estado. Países ricos são os que de fato eliminaram a pobreza poupando e investindo bem mais que o Brasil.

E a comandante Dilma? A História colocou-a noutras circunstâncias, agora más, da economia mundial. E corre o risco de ser culpada pelo mau desempenho da economia, pois o personalismo marca nossa política, desprezando a análise das circunstâncias. Por sua vez, o povo, sem conhecê-las, acaba endeusando ou demonizando governantes. Seria uma injustiça, pois no dia a dia o governo Dilma Rousseff dá demonstrações - trem-bala à parte - de preocupação maior com o mau estado do navio. Mas para lhe dar efetiva força própria precisará ter a ousadia que Lula não mostrou.

Até aqui, como resposta ao fraco crescimento o governo federal vem reduzindo a taxa básica de juros, fala-se de mais apoio a segmentos industriais e, entre outras medidas, de mais empréstimos do BNDES sustentados por mais dívida pública. Estes, apesar de grande magnitude no passado recente, ainda não tiveram efeito palpável sobre a taxa de investimento.

Isso é pouco diante da enormidade do que precisa ser feito. Sem conter o muito que arrecada e sem expandir fortemente o pouco que investe, o governo continuará fragilizado em sua ação. Assim, deveria começar por olhar-se no espelho. Quer pintar-se como indutor do crescimento, mas sem rever efetivamente o que faz para contê-lo.

 

*ECONOMISTA (UFMG, USP, HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É CONSULTOR , ECONÔMICO, DE ENSINO SUPERIOR

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