PIB tartaruga? Acelera, Brasil!

Começo insistindo na minha pregação contra o termo "pibinho". O Produto Interno Bruto (PIB) é um valor absoluto, e esse diminutivo é erroneamente empregado como referência à sua taxa de variação. O que se vê são taxinhas. O PIB é um "pibão" que coloca o Brasil como a sétima economia mundial. Contudo, tal tamanho não é documento para medir o desenvolvimento do País. O que vale é outra proporção, o PIB por habitante, que o deixa no meio do caminho, nem muito pobre nem rico. E corre o risco de ficar por aí com essas taxinhas.

ROBERTO MACEDO *,

06 Junho 2013 | 02h05

Assumem várias formas. Usarei só uma delas, a mais à frente no tempo. É a do primeiro trimestre de 2013 relativamente ao quarto de 2012, que foi de apenas 0,6%. Se repetida até o fim do ano, levaria a um crescimento anual de 2,42%. Também uma taxinha, pois o Brasil poderia ver o dobro disso com uma política econômica digna do nome. Sua grande fragilidade é o lado fiscal federal, de receitas e gastos. Arrecada demais, gasta mal e é dominado pelo objetivo de reeleger a presidente. A economia segue a reboque. E já há analistas prevendo um crescimento mais perto de 2%.

O que se passa com o PIB? Quase tudo em economia gira em torno de oferta e demanda. Oferta é o lado da produção. A demanda define o destino que lhe é dado por quem a adquire. Na oferta, a agropecuária mais uma vez foi a salvação da lavoura nacional, pois, ao crescer 9,7% (!) no trimestre, impediu uma taxinha do PIB ainda pior. A indústria andou na contramão, com -0,3%, e os serviços avançaram 0,5%, perto da taxinha do PIB.

Na demanda, o consumo das famílias, que o governo sempre se empenhou em estimular, aumentou apenas 0,1% no trimestre. Entre outras razões, há o maior comprometimento da renda familiar com endividamento e a inflação maior, que até estimulou a oposição. O consumo do governo, usualmente crescente, desta vez não aumentou nada, e seria bom que ficasse por aí. O que o governo precisa aumentar mesmo é o seu investimento.

Quanto ao investimento em geral, teve um desempenho robusto de 4,6%, mas vindo de valores muito baixos. Em parte, foi estimulado temporariamente pela demanda de caminhões, turbinada por incentivos governamentais e pela demanda que se havia contraído enquanto aguardava novos modelos com motores ajustados a novas exigências ambientais.

A demanda pelo PIB inclui a de outros países, atendida via exportações, que mostraram forte retrocesso, de 6,4%. Já a demanda externa brasileira, de importações, cresceu fortemente, à taxa de 6,3%, e beneficiou o PIB de outras nações.

Uma síntese do lado da oferta indica que um setor muito ajudado pelo governo, a indústria, atrapalhou o PIB. E a agropecuária ajudou, mesmo com o governo a atrapalhando ao não lhe prover uma infraestrutura de transportes adequada. Muito ajuda quem não atrapalha, é um velho ditado que deveria ser objeto de permanente reflexão nos gabinetes governamentais.

É claro que esse resultado poderia ser visto de outro modo, com o governo tentando ajudar quem não está bem, como neste caso crônico da indústria. Mas, de qualquer forma, mostra que o tratamento não funciona a contento. Em particular, medicações adotadas têm efeitos colaterais. Por exemplo, o estímulo ao consumo via crédito vaza em parte para importações. Desonerações da folha de pagamento para ampliar a competitividade e a produção das empresas podem ter seu efeito diluído por aumentos das margens de lucro.

O Brasil tem hoje problemas mais do lado da oferta. O caminho está em estimular a produção mediante ampliação de investimentos que fortaleçam a capacidade produtiva do País. Ou seja, a de gerar PIBs maiores a taxas satisfatórias, e não essas taxinhas que o IBGE registra.

Esse caminho envolve várias rotas, e uma das mais importantes é a do investimento em infraestrutura nas suas várias dimensões, como a de energia e transportes em geral, de grande impacto econômico, e a de natureza social, em ações como saneamento básico, transporte urbano de passageiros e programas habitacionais. Em infraestrutura, o papel governamental é indispensável, como condutor do processo e também mediante seus próprios investimentos. Mas faltam-lhe recursos e capacidade gerencial para fazer e administrar o que foi feito. Assim, tem e terá de recorrer a concessões de serviços públicos e a parcerias público-privadas.

Ainda que muito tardiamente, parece que o governo federal acordou para essa necessidade. São Paulo é um Estado que despertou bem antes, e bons resultados são evidentes. Basta transitar pelas estradas estaduais e compará-las com as de outros Estados, inclusive as federais, que fazem as interligações entre eles, para perceber a diferença.

Mas o governo federal despertou ainda um tanto sonolento. No ano passado, entusiasmei-me com o seu programa de concessão de ferrovias e rodovias, no valor de R$ 133 bilhões, anunciado pela presidente Dilma em 15 de agosto. Foi dito que logo seria posto em andamento, com licitações entre dezembro de 2012 e maio deste ano, o que até aqui não ocorreu. Já está próximo do primeiro aniversário...

Enfim, mais investimentos são a rota corretamente escolhida pelo governo, mas é preciso acelerar em muito a velocidade de seus projetos e obras. O PIB se mede por unidade de tempo. Falei do PIB trimestral, mas há também o anual e o mensal, além de outros, sempre avaliados nessa dimensão temporal. Assim, uma forma de acelerá-lo é fazer tudo mais rápido. Os economistas chamam isso de aumento da produtividade, mas acho que é preciso comunicar melhor a mensagem. Assim, recorri ao apresentador Galvão Bueno em suas mensagens a Ayrton Senna e optei por: "Acelera, Brasil!". É o grito que repetidamente deveria ecoar pelo País e ser ouvido e seguido pelos governantes que o pilotam.

* ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA (UFMG, USP, HARVARD), CONSULTOR ECONÔMICO DE ENSINO SUPERIOR E PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP.

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