Pior do que parece

Além do problema imediato da escassez de água provocada pela seca particularmente grave neste ano, que já perturba o abastecimento na Grande São Paulo, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) está às voltas com outro, mais difícil, que não se resolve com chuva. É o envelhecimento da rede de distribuição, cujas condições precárias colaboram para os altos índices de perda de água na região.

O Estado de S.Paulo

27 Abril 2014 | 02h07

Levantamento feito pela empresa e enviado em março para a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp) mostra que 17% da rede tem mais de 40 anos e 34%, entre 30 e 40 anos. Mais de metade da rede que atende Perdizes (zona oeste), Moema (sul), Tatuapé (leste) e Sé (centro) tem mais de 30 anos. A região central está em pior situação, pois ali parte da tubulação foi instalada na década de 1930, ou seja, tem por volta de 80 anos. Segundo o estudo, "o envelhecimento das tubulações, especialmente na região metropolitana de São Paulo, é um dos principais motivos das perdas físicas (vazamentos) da Sabesp".

Os problemas não param aí, porque 4 de cada 10 vazamentos são invisíveis e difíceis de serem detectados - são rachaduras resultantes do desgaste da tubulação enterrada. Nesse caso, a água não chega à superfície e não se ouve o barulho provocado por ela quando escapa. De acordo com o estudo, 13% dos vazamentos são visíveis e 50% só podem ser localizados por métodos acústicos. "Esses dados são indícios de que as perdas da Sabesp são formadas prioritariamente por vazamentos não visíveis, os quais dificultam sua identificação ou requerem técnicas especiais de detecção, tornando-a mais cara." As perdas físicas representam 66% do desperdício total de água tratada produzida pela empresa.

Como se tudo isso não bastasse, a Arsesp aponta outra dificuldade para pelo menos limitar os prejuízos acarretados pela precariedade da rede, enquanto ela não é renovada. A Sabesp, diz ela, segundo reportagem do Estado, não consegue nem mesmo consertar uma parte dos vazamentos visíveis. Prova disso é que o número de reclamações referentes a casos como esses, que chegam à Arsesp, aumentou 89% nos primeiros dois meses deste ano, em relação a igual período de 2013. Ou seja, a situação, em vez de melhorar, piora.

Esse quadro explica por que a Sabesp não consegue reduzir a perda de água, apesar de suas repetidas promessas. No ano passado, a perda foi de 31,2% de toda a água produzida no percurso entre as estações de tratamento e as caixas d'água dos consumidores. A Sabesp alega que mesmo assim está entre as cinco empresas de saneamento que menos desperdiçam água no País. A Arsesp não concorda com essa avaliação. De acordo com ela, se se excluir a água que a Sabesp vende no atacado - como para Guarulhos, que possui uma rede própria de distribuição -, a perda de água foi de 35,6% em 2012, e não de 32,1%, como afirma a empresa. "Nesse caso", diz a Arsesp, "a Sabesp estaria numa posição muito inferior no ranking nacional."

Não admira que a empresa não consiga atingir as metas fixadas pela Arsesp. O índice de desperdício deveria ter baixado de 32,1% em 2012 para 30% no ano passado, mas ficou em 31,2%. Para este ano a meta é de 29,3%. Para atingi-la, a Sabesp terá de fazer um esforço maior do que o atual, começando por melhorar o seu desempenho no conserto dos vazamentos visíveis, porque essa é a parte mais fácil.

Mas, por mais que avance nesse sentido, ela não conseguirá ir muito longe, porque para isso é preciso renovar a rede de distribuição, o que é caro e demanda tempo. Como diz o presidente da seção paulista da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), Alceu Bittencourt, esse problema "não se resolve com manutenção. A solução é substituição integral (da rede velha)". Como essa troca exige recursos que a Sabesp não tem, cabe ao governo do Estado encontrar uma solução para o problema e o mais rápido possível, porque a situação está se deteriorando.

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