Pior que o PIB, a anemia

Limpar e arrumar as devastadas finanças públicas será apenas um dos desafios do novo governo. Ele terá de cuidar ao mesmo tempo de uma economia anêmica, sem musculatura e sem fôlego para crescer de forma sustentável

O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2016 | 03h07

Limpar e arrumar as devastadas finanças públicas será apenas um dos desafios do novo governo. Ele terá de cuidar ao mesmo tempo de uma economia anêmica, sem musculatura e sem fôlego para crescer de forma sustentável. Com desemprego elevado e muito sacrifício para milhões de famílias, a recessão continuou no segundo trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) foi 0,6% menor que no primeiro e 3,8% inferior ao de um ano antes, com redução de 4,9% em 12 meses. Esses números são feios e assustadores, mas há algo mais preocupante nas contas nacionais divulgadas na quarta-feira passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O investimento em máquinas, equipamentos e obras, conhecido no jargão profissional como formação bruta de capital fixo, correspondeu a apenas 16,8% do PIB, a menor taxa para um segundo trimestre desde 2003, quando ficou em 16,4%.

Desde o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o governo tem prometido conduzir o investimento fixo a algo em torno de 24% do PIB. Seria um patamar mínimo para um crescimento econômico duradouro e mais rápido que o observado no Brasil desde 2009. Taxas em torno de 24% e até bem superiores são observadas em outras economias emergentes e em desenvolvimento. Como consequência, esses países têm conseguido manter crescimento econômico acima de 4% ao ano, em média, por longos períodos. É fácil encontrar exemplos na América do Sul e também na Ásia, mesmo sem levar em conta o caso da China.

Investimento em construções e bens de capital é indispensável para o aumento e para a modernização da capacidade produtiva e, de modo geral, para a maior eficiência da economia. Educação é tão importante quanto esses itens e também nesse quesito – ainda sem explicitação nas contas nacionais – o Brasil fica longe dos emergentes mais dinâmicos, principalmente por causa da baixa qualidade do ensino.

A única boa notícia, no caso do investimento fixo, foi o aumento de 0,4%, do primeiro para o segundo trimestre, no valor destinado a bens de produção e a construções. Os totais investidos continuam bem abaixo dos contabilizados um ano antes, mas no segundo trimestre houve alguma melhora tanto nas obras quanto na produção e na importação de máquinas e equipamentos. Mesmo com essa pequena variação positiva, é importante repetir, uma taxa de investimentos de 16,8% do PIB é incompatível com qualquer ambição séria de crescimento.

O investimento brasileiro, segundo outras fontes de informação, tem sido insuficiente até para cobrir a depreciação do capital físico acumulado ao longo de muitos anos. Isso é visível, por exemplo, no mau estado de boa parte da malha rodoviária. Muitos países podem passar uma fase de recessão, recuperar-se e voltar a crescer com dinamismo, se tiverem musculatura suficiente para isso. O caso do Brasil é de anemia, como têm apontado, há anos, analistas econômicos nacionais e estrangeiros. Passada a fase inicial da recuperação, o País estará condenado a um desempenho abaixo de medíocre, se o investimento continuar muito baixo.

O governo terá um papel muito importante na criação do impulso inicial. Terá de mostrar competência – nunca demonstrada na gestão da presidente Dilma Rousseff – na atração de capitais privados para investimentos em infraestrutura. Mas terá, ao mesmo tempo, de criar entre os empresários confiança suficiente para aumentar os gastos privados em bens de capital e em instalações produtivas. Essa confiança dependerá, em primeiro lugar, do empenho mostrado pelo presidente e por sua equipe na correção dos enormes desajustes das finanças públicas. A esse empenho será preciso somar competência na conquista de apoio parlamentar às novas políticas.

A cassação da presidente Dilma Rousseff dá ao novo governo maior segurança para negociar as medidas de ajuste. Mas a vitória parcial dos aliados da presidente cassada, com a preservação de seus direitos políticos, é um sinal de alerta para o presidente Michel Temer.

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