Pobres argentinos

O governo de Cristina Kirchner bem que tenta esconder a crescente depauperação da Argentina, causada por suas políticas irresponsáveis, mas a realidade insiste em se impor. O problema é que a maquiagem dos números constrangedores, hábito recorrente na Casa Rosada kirchnerista, já não convence mais nem mesmo alguns governistas.

O Estado de S.Paulo

17 Maio 2014 | 02h03

O mais recente informe de um centro de pesquisas da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA), que é alinhada a Cristina, indica que o número de pobres no país chegou a 18,2% da população no último trimestre do ano passado. Esse porcentual é quatro vezes superior ao índice oficial, que é de apenas 4,7%, verificado no primeiro semestre de 2013 - equivalente ao das principais economias da Europa.

Cumprindo o script governista, a CTA até tenta demonstrar em seu relatório que a situação no país é muito melhor hoje do que foi no período anterior ao dos Kirchners. Diz, por exemplo, que "a evolução da taxa de pobreza mostra uma forte e sistemática tendência decrescente nos últimos dez anos", caindo de 49,7% em 2003 para 17,8% em 2013. No entanto, a pobreza na Argentina já foi de 16,1% em maio de 1994, depois de atingir 47% em 1989 graças à hiperinflação. Logo, há hoje na Argentina um porcentual maior de pobres do que há 20 anos, quando se implantaram políticas de estabilização da economia, reduzindo o chamado imposto inflacionário - aquele que é pago basicamente pelos que têm menor renda.

Com a atual disparada da inflação - cuja medição oficial, também suspeita, aponta para 11% no primeiro trimestre -, as projeções indicam uma reversão da queda da pobreza no país. "Provavelmente a aceleração dos preços após a desvalorização do peso em janeiro de 2014 provoque um incremento das taxas de pobreza e de indigência", admite a CTA. No entanto, a alta já era uma tendência no ano passado, quando o porcentual de pobres, segundo os critérios da central, subiu de 17,4% no primeiro trimestre para 18,2% no quarto trimestre.

A CTA recomenda, diante desse quadro, que o governo compense a alta inflacionária com um reajuste dos benefícios sociais, semelhantes ao Bolsa Família. Segundo a central, um desses benefícios, pagos a desempregados, subempregados ou que ganham menos de um salário mínimo, sofreu brutal perda de poder de compra em razão da inflação do primeiro trimestre deste ano, e hoje vale 9,3% menos do que ao ser criado, em 2009.

Do mesmo modo, a inflação fez com que o poder de compra do salário mínimo em dezembro de 2013 ficasse 4,7% menor do que o verificado no mesmo período de 2012 - apesar de dois significativos aumentos concedidos no ano passado, de 7,7% em fevereiro e de 14,8% em agosto.

Em lugar de admitir o problema, o governo Cristina reagiu como de hábito - acusando a "oposição" de distorcer os números sobre a pobreza, embora a CTA não seja de oposição. Os índices da CTA são até generosos, perto dos aferidos por outros institutos. Uma conceituada pesquisa da Universidade Católica Argentina diz que a pobreza na Argentina é de 27,5%, enquanto a Confederação Geral do Trabalho (CGT), rompida com Cristina, calcula esse índice em 30,9%.

Seja como for, parece claro, a esta altura, que são simplesmente falsos os números oferecidos pelo governo a partir dos cálculos do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) - que está sob intervenção do governo desde 2007, quando o então presidente, Néstor Kirchner, resolveu adaptar os indicadores à sua narrativa heroica. O último dado do Indec sobre a pobreza é do primeiro semestre de 2013 - por ordem do ministro da Economia, Axel Kicillof, a divulgação dos números do segundo semestre foi suspensa, talvez porque nem torturados os números digam o que o governo deseja.

É assim, escondendo dados para fingir que tudo vai bem, que a Argentina cava mais fundo ainda o buraco em que se encontra desde que acreditou no conto populista do kirchnerismo - em que os pobres somem num passe de mágica.

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