Política de juros e políticos

As condições para a queda dos juros bancários estão dadas, segundo o BC, mas falta convencer os banqueiros a agir de acordo com esse diagnóstico

O Estado de S.Paulo

03 Abril 2018 | 03h00

As condições para a queda dos juros bancários estão dadas, segundo o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, mas falta convencer os banqueiros privados a agir de acordo com esse diagnóstico. O dinheiro continua muito caro para a maioria dos empresários e consumidores, apesar da inflação baixa, dos cortes da Selic e da redução da inadimplência. Com algum recuo das taxas cobradas pelas instituições financeiras, o capital de giro do setor industrial ficou mais barato no ano passado, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Mas o custo dos financiamentos, no mercado, acompanha muito de longe – quando acompanha – a diminuição da Selic, administrada pelo Comitê de Política Monetária do BC, o Copom. Com a inflação bem abaixo da meta e sem perspectiva de grande repique nos próximos dois anos, especialistas do mercado dão como certo um novo afrouxamento da política na próxima reunião do Copom, marcada para maio.

Na última, em março, os juros básicos foram reduzidos de 6,75% para 6,50% ao ano. Deverão em seguida cair para 6,25%, segundo a mediana das projeções captadas na pesquisa Focus divulgada ontem. De acordo com a pesquisa, a Selic voltará a 6,50% em fevereiro do próximo ano e estará em 8% no fim de 2019.

Os novos aumentos, segundo as projeções, acompanharão o retorno da inflação oficial ao patamar de 4%. O índice aumentou 2,84% nos 12 meses terminados em fevereiro. O mercado estima variação de 0,15% em março, de 3,54% neste ano, de 4,08% em 2019 e de 4% em 2020. No fim desse ano a Selic ainda estará estacionada em 8%, segundo a pesquisa realizada semanalmente no mercado.

Projeções para mais de dois anos são obviamente sujeitas a erros consideráveis, mas tanto as instituições financeiras como empresas de outros setores precisam correr esse risco – pelo menos para planejar os investimentos mais importantes. Não se decide a construção ou ampliação de uma fábrica, nem a compra de equipamentos muito caros, sem alguma ideia de como a economia poderá evoluir durante um período razoável.

Superestimar a inflação foi um dos erros cometidos nos últimos dois anos, mas sem danos muito graves. A alta de preços, bem abaixo das projeções, tem sido uma boa surpresa. Se nenhuma surpresa muito grave ocorrer no exterior, o cenário internacional continuará benigno e isso ajudará a manter a inflação brasileira em ritmo tolerável.

Por enquanto, mantém-se a expectativa de juros básicos em 8% durante uma parte do próximo ano e ao longo de 2019. Mas o BC, como lembra Goldfajn, age em várias frentes para destravar e baratear o crédito. Medidas como a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP) para empréstimos do BNDES, alterações no rotativo do cartão de crédito e criação do cadastro positivo podem baratear os empréstimos, segundo o presidente do BC.

Não está claro – e este detalhe tem sido pouco discutido pelas autoridades monetárias – se o grau de concorrência no mercado bancário ajudará ou dificultará a redução de juros ao tomador de crédito. Essa redução dependerá em parte da redução do spread, a diferença entre o custo de captação de recursos e os juros cobrados na concessão de empréstimos. Haverá competição suficiente entre os bancos para um resultado significativo.

De toda forma, condições básicas para créditos mais baratos serão dadas por inflação baixa, taxa Selic muito moderada, pouca retenção de recursos em depósitos compulsórios e bom cenário de financiamento da dívida pública. É ilusório falar sobre redução de juros quando o Tesouro tem dificuldade para captar dinheiro e rolar seus compromissos. Essas condições básicas dependerão do avanço na implementação de ajustes e reformas. Sem isso, nem a inflação será mantida em níveis parecidos com os deste ano e os previstos para os próximos dois. O reconhecimento deste fato leva a discussão às eleições e à qualidade do Congresso e do próximo governo. Milagres estão fora das atribuições de bancos centrais.

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