Política e ecologia - Mujica na Rio+20

Uma avaliação criteriosa dos pronunciamentos na recente Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) destacaria por sua lucidez o do presidente do Uruguai, José Mujica, discreta e polidamente aplaudido pela plateia e menoscabado pela mídia. Na verdade, praticamente ignorado, talvez porque não tenha desenvolvido explicitamente fatos da flora e fauna, o desmatamento, a poluição, a mudança climática e o efeito estufa, como pedia o clima do evento. Este artigo comenta o pronunciamento, simples na forma e profundo no conteúdo, que pode ser acessado no Google e vale a pena ver/ouvir e ler (está legendado em português).

MARIO CESAR, FLORES, ALMIRANTE DE ESQUADRA, (REFORMADO), MARIO CESAR, FLORES, ALMIRANTE DE ESQUADRA, (REFORMADO), O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2013 | 02h11

O simpático presidente homenageou a boa-fé dos oradores que o precederam e passou a desenvolver sua ideia básica: a causa protagônica do cenário ecológico/ambiental sombrio que preocupa o mundo é o modelo de civilização que vivemos. Disse o que provavelmente a maioria dos presentes partilhava como ideário abstrato, sem observá-lo no cotidiano concreto porque satisfeita com a vida pautada na cultura consumista: vivemos um modelo de civilização marcado pelo hiperconsumo. Integrou as questões ambientais e ecológicas que dominavam a Rio+20 numa razão comum: na raiz da agressão do homem à natureza está presente o hiperconsumo, praticado no mundo de população imensa e crescente. Caracterizado pelo "use e jogue fora", esse modelo nos obriga a trabalhar mais para consumir mais, a fazer coisas que não durem e a comprar sempre mais porque, se o consumo não cresce, paralisa a economia. Complementou sua crítica com uma breve menção também crítica ao crédito a serviço da política do desenvolvimento baseada no consumo (e no desperdício...). E fechou essa cadeia de raciocínio com uma frase de efeito, coerente com sua vida pessoal modesta, de arguto significado emblemático: "Pobre não é quem tem pouco, mas sim quem deseja muito, sempre mais e mais".

Sintoma simbólico da esquizofrenia insinuada no pronunciamento: o Natal perdeu sua conotação de festa religiosa, passou a ser uma apoteose comercial; em vez da igreja, o shopping... Por vezes a compulsão ao "compre mais" chega ao desatino. Exemplo: o poder público brasileiro estimula a compra do carro porque a indústria automobilística emprega e pesa na economia e na receita fiscal, mas é reticente quanto ao seu uso, quando não o cerceia (algo assim como "compre carro, mas deixe-o na garagem") porque não consegue compatibilizar a infraestrutura (ruas, estradas, estacionamento) com o aumento do numero de carros...

Passando do diagnóstico à correção: para Mujica, o despautério exige a revisão do modelo socioeconômico consumista e do comportamento humano nele - um processo complexo, dependente da condução política. Declarou que como governante seguiria as recomendações emanadas do evento, mas o fez em tom que indicava não serem elas suficientes: há que rever o modelo de civilização de consumo desenfreado.

O pronunciamento de Mujica nos leva a pensar: procedimentos corretivos como os que vêm sendo preconizados e precariamente praticados (Kyoto e outros "mandamentos" da boa-fé) talvez possam reduzir ou retardar os efeitos perniciosos da ação humana na sua relação com a natureza. Mas a solução no longo prazo, que compatibilizará definitivamente o bem-estar da humanidade com a sustentabilidade da natureza, passa pela mudança de comportamento humano, pela revisão da política de desenvolvimento predadora e geradora de poluição, alicerçada no consumo apoiado no crédito desvairado.

Reside aí o nó da questão. O "compre mais" convém à economia de mercado e assegura empregos, além de ser útil à receita fiscal. Para que os políticos de país democrático contestem esse lema seria necessário, portanto, que estivessem dispostos a contrariar o "apetite consumista" das populações, a correr risco político-eleitoral. Não é isso que acontece: no mundo democrático, em forte evidência no Brasil, os políticos estimulam o "compre mais", visto como atestado de cidadania no modelo consumista que impregna o teatro político. Quanto aos autoritarismos, no mundo integrado pelas comunicações, que disseminam os costumes e universalizam as pretensões, também seus políticos se veem compulsados a apoiar o consumo, sob pena de desestabilização política e social. É o que ocorre na China hoje.

Em suma, o presidente Mujica deixou na Rio+20 uma mensagem significativa no tocante ao futuro da relação humanidade-natureza: o desenvolvimento que atenda à humanidade e seja sustentável não se dará no longo prazo sem uma revisão no estilo de vida dos povos - basicamente no modelo socioeconômico dominado pelo hiperconsumo. Há que reconfigurar o modelo às injunções da natureza e isso contrariará tanto os beneficiários de padrões de consumo já consolidados nos países ricos como o interesse da imensa maioria global pretendente a esses mesmos padrões. No desenvolvimento desse tema Mujica usou uma observação simplória, mas simbólica e instigante: o impacto na atmosfera, caso a proporção carro/homens na Índia venha a subir à proporção carro/homens alemã; teria sido mais contundente se tivesse usado a proporção norte-americana na China...

O caminho preconizado no pronunciamento do presidente do Uraguai é tarefa de políticos com visão estadista de futuro. Será possível? Na atual conjuntura de informações globalizadas e de economia de consumo já consolidada em parte da humanidade e pretendida por toda, ele é, para dizer o mínimo, muito difícil. Exige uma reestruturação cultural que não entusiasma o mundo político, democrático e autoritário.

Uma pitada de realismo sóbrio num cenário de manifestações de boa-fé de duvidosa viabilidade, a mensagem de Mujica merecia maior destaque. Na verdade, merecia o grande destaque do evento Rio+20.

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