Política no DF e coronelismo

O jogo político no Distrito Federal (DF) sempre foi disputado por representantes de três grandes correntes políticas. A primeira é vinculada aos interesses das oligarquias goianas, detentoras de grande patrimônio fundiário e praticantes de uma política coronelista e retrógrada, baseada no clientelismo e na corrupção. A segunda concentra representantes dos sindicatos, dos servidores públicos, dos movimentos sociais e outros. Já a terceira representa basicamente os interesses do poder econômico local.A história política brasiliense mostrou que a articulação entre essas três grandes forças ocorreu visando a captura do Poder Executivo, o governo do DF (GDF).Desde 1988, quando o PMDB indicou um político com formação e visão paroquiais para governar o DF, houve uma aproximação - por interesses, é claro - entre as forças do Entorno e os representantes do capital federal. Essa aliança, política e econômica, funcionou durante mais de uma década, caracterizando um estilo de governo com discurso populista, próprio das oligarquias brasileiras; práticas assistencialistas, com o intuito de atrair os pobres; obras faraônicas para atender a interesses dos empreiteiros mais do que às necessidades da sociedade; cooptação da mídia local, mediante compra de espaços para publicidade institucional; aquisição de empresas de comunicação por agentes e aliados do governo.Nos últimos anos, o GDF não teve fiscalização da mídia local, sobretudo da imprensa. O ex-governador e ex-senador Joaquim Roriz governou sem oposição e sem fiscalização dos jornalistas, o que lhe deu condições de governar como se fosse um grande empreendedor.Esse político demonstrou habilidade para neutralizar, por meios ilícitos, outras instâncias do Estado, passando ao largo de dezenas de processos contra ele. A relação política estabelecida com a Câmara Legislativa, por exemplo, se baseou na cooptação e na ameaça, fazendo com que esta funcionasse como uma extensão dos interesses da aliança entre os representantes das oligarquias goianas e do empresariado local, sobretudo da construção civil, da tecnologia de informação, da prestação de serviços ao GDF, e da grilagem de terras e mudança de destinação de áreas públicas.Mesmo quando a chamada "esquerda'''' chegou ao GDF e tentou mudar essa lógica, ficou subordinada ao poder de influência do capital local. A prática política das esquerdas é de patrulhamento mútuo e inoperância gerencial. Sua incapacidade para agir em aliança transfere poder aos adversários. Essa vantagem foi bem aproveitada por Roriz e seus parceiros.Brasília foi governada por 15 anos por um grupo político comandado por um líder sem preparo gerencial e sem formação política para empreender um projeto de governo que tornasse a capital da República uma referência nacional em modelos de gestão pública.Houve investimento em infra-estrutura, mas trazendo mais benefícios às empreiteiras do que à população. Não houve auditorias técnicas sobre obras faraônicas nem sobre a contratação de serviços.O uso do Banco de Brasília, que deveria fomentar o desenvolvimento local, sempre beneficiou um pequeno grupo. Em educação, saúde, trânsito, segurança e outras demandas fundamentais da sociedade, as ações se voltaram para a conquista do voto fisiológico.A lógica da política local revela o traço mais perverso do assistencialismo político nacional. A estratégia de atrair milhares de brasileiros para o Entorno sem lhes dar condições de emancipação mostra o quanto a política da região ficou dependente do jogo centralizado no GDF.A omissão dos governos municipais do Entorno deu poder aos políticos do DF, mas os interesses dos políticos do DF não se focavam nas necessidades da capital ou das cidades vizinhas. A Câmara Legislativa nunca se preocupou em discutir um projeto estratégico para o DF e o Entorno, fazendo uma reflexão que permitisse uma análise abrangente e integrada dos problemas que afligem o Centro-Oeste. Hoje, a Câmara Legislativa funciona mais como um conjunto de representantes paroquiais.O jogo político é, em síntese, a disputa pela captura dos Poderes Executivo e Judiciário e ocorre cotidianamente no Parlamento. Por isso a disputa pelo mandato é sempre intensa e, no Brasil, funciona subordinada ao poder econômico. Esse ciclo, na política local, é vicioso porque não visa o bem comum, mas sim a satisfação de interesses pessoais e econômicos específicos.A expectativa maior é que o foco da política do DF seja invertido. Isto é, que se olhe o Entorno a partir de Brasília. Que o GDF e os políticos locais vejam a região como uma grande oportunidade para expansão de suas ações, criando novos mercados, gerando emprego e renda e condições objetivas para que a população se possa desenvolver e se emancipar do jugo colonialista e retrógrado ainda praticado em algumas regiões do País.A mudança de foco só ocorrerá por meio de ações estratégicas: Formação de novas lideranças políticas oriundas de setores progressistas baseados no crescimento econômico local; desenvolvimento gerencial e institucional; educação empreendedora; mudança da cultura política do Entorno para uma cultura participativa; aumento da capacidade de governo nos municípios, oferecendo à população educação de boa qualidade, saúde e segurança, além de lazer e de entretenimento.Diante desses desafios, pode-se constatar que a cultura política do DF terá de mudar substancialmente, se quiser liderar o crescimento econômico da Região Metropolitana e promover a sustentabilidade necessária para melhorar a vida dos brasilienses e vizinhos.

Antônio Flávio Testa, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2027 | 00h00

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