Pontes aos pedaços

Obras de emergência em viadutos e pontes de São Paulo consumiram R$ 45 milhões dos cofres municipais nos últimos três anos. Desse total, R$ 23 milhões foram utilizados em 2012, um volume que deverá ser ainda maior por causa dos reparos no Viaduto Orlando Murgel, danificado durante incêndio na Favela do Moinho, em meados de setembro. Os contratos de reformas emergenciais em pontes, viadutos e passarelas exigiram repasses num valor nove vezes maior do que o gasto com a manutenção de tais obras. Ou seja: essas construções só merecem atenção quando um acidente ou uma tragédia ameaça suas estruturas. Uma reforma em regime de emergência custa no mínimo cinco vezes mais que os serviços de manutenção.

O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h06

São Paulo nunca dispôs de uma política dedicada aos procedimentos sistemáticos de manutenção de pontes, viadutos e outras estruturas do gênero. Há seis anos, o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) fez um levantamento das condições dessas construções na capital - que então somavam 240 pontes e viadutos, 75 passarelas e 700 pontilhões. Estimou-se que 10% desse conjunto estava com estruturas deterioradas e outros 50% necessitavam de reformas leves. Um ano depois, o Ministério Público paulista firmou com a Prefeitura um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta, estabelecendo intervenções em 68 pontes e viadutos em um prazo de até dez anos. Para isso, a administração municipal deveria manter reformas em sete pontes e viadutos a cada ano, em média.

A Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras terá de se desdobrar para cumprir o acordo. Em entrevista ao Estado, o secretário adjunto Luiz Ricardo Santoro afirmou que desde 2009 a Prefeitura tenta, sem sucesso, contratar empresas para a manutenção e que apenas no fim de 2011 a pasta formalizou uma ata de registros de preços para serviços de conservação. Segundo ele, o serviço já começou em dez endereços, ao custo de R$ 13 milhões, e, "nos próximos anos", o volume de recursos destinados à prevenção vai aumentar de forma significativa.

A maioria das pontes e dos viadutos de São Paulo foi construída até meados da década de 70. De lá para cá, a frota da cidade aumentou de 1 milhão de veículos para mais de 7,3 milhões. Conforme os especialistas em obras viárias, as pontes são projetadas para uma vida útil de 50 anos, o que pode ser prolongado em muito se houver manutenção adequada. Numa cidade onde o trânsito é intenso, a frota só aumenta, a malha viária não cresce e sob vários viadutos e pontes multiplicam-se favelas, o cuidado deveria ser ainda maior, uma vez que os acidentes são mais frequentes.

Nos últimos meses, além do Viaduto Orlando Murgel, pelo menos quatro outras dessas estruturas na capital foram afetadas por acidentes. Um incêndio comprometeu o Viaduto Pompeia, que ficou em obras durante seis meses, ao custo de R$ 10,8 milhões; parte da mureta de proteção da Ponte dos Remédios caiu e causou interdição no local até que obras de emergência fossem concluídas, importando em gasto de R$ 8,7 milhões; no Viaduto Brigadeiro Luís Antônio, uma placa de concreto se soltou e atingiu um carro; o mesmo tipo de incidente ocorreu na Ponte do Morumbi.

Os problemas mais comuns encontrados nessas estruturas são as infiltrações e a exposição das ferragens, chamadas de armaduras. Os dois podem, inclusive, estar relacionados: a infiltração é provocada pela água da chuva, por falhas na impermeabilização ou por problemas na tubulação. Sem manutenção adequada, o concreto é corroído, deixando as ferragens expostas.

Vistorias em pontes e viadutos a cada dois anos é o que aconselha, por exemplo, o diretor de engenharia do Sinaenco, Gilberto Giuzio. "É claro que não há como prever acidentes, mas investimento adequado em manutenção evita consertos maiores e mais caros", disse ele. Em vez das vistorias, porém, contrata-se de tempos em tempos um novo estudo para verificar quais estruturas precisam de reforma. E tudo fica só no papel, à espera do próximo desastre.

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