Pontes e viadutos sob risco

O prefeito Fernando Haddad promete atacar um dos mais graves problemas da cidade - o da recuperação das pontes, viadutos e passarelas, degradados por falta de conservação, que só recebem atenção, e assim mesmo passageira, quando ocorrem acidentes. Mas infelizmente não há o que festejar, porque o projeto é muito acanhado. Tudo indica que mais uma vez a ação da Prefeitura será apenas um remendo, destinado a evitar o pior, no curto prazo. O que conta mesmo - um programa ambicioso e abrangente para salvar esse patrimônio que há décadas sofre um processo contínuo de desgaste - não parece estar nos planos do atual governo.

O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2014 | 03h04

Foi aberta licitação para a execução de obras de recuperação desses equipamentos, orçadas em R$ 70 milhões. Elas incluem também reforma de calçadas em viadutos, pontes e pontilhões e a instalação de gradis para a proteção de pedestres. É muito pouco quando se considera o tamanho do trabalho - e consequentemente o do seu custo - necessário para fazer todos os reparos que se impõem. Como se isso não bastasse, parte daqueles recursos será destinada à aplicação de um verniz antipichação em mais de 90 daqueles equipamentos.

Esse produto impede que qualquer tipo de tinta impregne profundamente as estruturas, o que facilita a sua remoção, que pode ser feita até mesmo com água. Esse verniz já foi aplicado, com bons resultados, em alguns monumentos da cidade em 2012. Não há nada a objetar a essa medida destinada a evitar as pichações - ou facilitar sua limpeza - de pontes, viadutos e passarelas, que enfeiam a cidade. Mas ela é de importância secundária. É um embelezamento que só se justifica depois de concluída a recuperação das estruturas.

E isso ainda está muito longe de acontecer, porque Haddad está perdendo uma excelente oportunidade de deixar sua marca na história administrativa cidade, atacando para valer esse problema. Ele não surgiu agora, não foi criado por Haddad, vem de longe e não para de se agravar por causa de promessas não cumpridas de seus antecessores. Mas o prefeito não é obrigado a seguir esse mau exemplo, como parece estar fazendo.

A maioria dessas obras foi construída nas décadas de 1950 e 1960. Hoje formam um conjunto de mais de 240 pontes e viadutos. Em 2005, o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) fez um estudo sobre o seu estado e concluiu que metade deles precisava de algum tipo de reparo e 10% se encontravam em situação difícil, exigindo reformas urgentes. Um ano depois, levantamento feito pela Prefeitura levou a um diagnóstico ainda mais grave e preocupante - 90% daqueles equipamentos deviam passar por reparos. Esses dois trabalhos se tornaram referência obrigatória no assunto, pela sua qualidade técnica. Tudo indica que pouco mudou desde então.

Esse precioso patrimônio da cidade, elemento essencial de seu sistema viário - avaliado na época em R$ 8 bilhões -, chegou a tal estado de deterioração como consequência de um dos piores vícios da administração pública brasileira - a falta de manutenção preventiva. Ao contrário da conclusão e inauguração de obras, sua manutenção não dá retorno eleitoral e, por isso, delas os governantes só se lembram quando ameaçam desabar e recebem então remendos de emergência.

A maioria das pontes e viadutos da capital, velha de mais de meio século, foi planejada para caminhões de no máximo 30 toneladas, mas, como desde então a situação mudou, há muito vem suportando carretas de 50 toneladas. Não admira que, com esse peso suplementar e sem reformas, eles estejam hoje ameaçados. Os acidentes que se tornam cada vez mais frequentes são sinais de alerta de que é ao mesmo tempo indispensável e urgente iniciar a execução de um vasto plano de recuperação e modernização desses equipamentos. Plano que certamente se estenderá por vários governos. Haddad estará disposto a dar o primeiro passo ou se contentará com as acanhadas obras que acaba de anunciar?

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