Popularidade se recupera?

Em política, ter popularidade é um grande tesouro. Todo governante procura manter seu prestígio entre os governados. A História da humanidade é repleta de exemplos de personalidades que se tornaram célebres por causa do prestígio que conquistaram em vida ou, então, da recuperação póstuma que mereceram. Na verdade, prestígio não é o mesmo que popularidade. O prestígio pode ser pessoal, devido a méritos individuais, qualidades profissionais, morais ou sociais. A popularidade tem um componente político especial, porque envolve benefícios públicos por serviços prestados ou a serem prestados, por meio de compromissos assumidos previamente por quem merece crédito para isso.

Carlos Matheus, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2015 | 03h00

Popularidade é uma das vias de acesso ao poder. Maquiavel, em seus conselhos a um futuro “príncipe” de Florença, disse que o poder se alcança “por méritos ou pela força”. Méritos são o que se entende por popularidade nos tempos atuais. Certos líderes políticos oscilaram muito entre essas duas vias de acesso ao poder. Um exemplo está na trajetória política de Getúlio Vargas: conquistou e perdeu o poder pela força, para ser eleito 20 anos depois graças à popularidade obtida, mas se viu novamente ameaçado de perdê-lo pela força, preferindo morrer para recuperar postumamente a popularidade que tinha.

Essas considerações servem de referência para a trajetória política de dois nomes que ocupam atualmente o cenário político do Brasil: Lula e Dilma. Ambos foram conduzidos ao poder e nele se mantiveram, sustentados por altos níveis de popularidade, durante mais de uma década. A popularidade de Lula foi a causa dos votos conquistados por Dilma.

Ele se tornou o avalista dela perante a opinião pública e ambos passaram a ser detentores de uma popularidade gêmea: um reflete os méritos ou deméritos do outro. Mais exatamente, os méritos de Dilma enaltecem Lula e os deméritos dela também o atingem. Afinal, veio dele a garantia original das qualidades dela.

Em 2015, segundo as pesquisas e as manifestações públicas, a popularidade de Dilma despencou. Causas éticas e econômicas estão inegavelmente presentes nessa queda, levando a indagações sobre sua eventual recuperação.

Poderá ela recuperar a popularidade perdida? Essa é uma questão que envolve não só o futuro desses dois nomes que ocupam o foco central da política brasileira, como também o próprio futuro imediato do cenário político do País. Se for recuperada a popularidade perdida, com a superação da atual crise econômica e política, Lula e Dilma estarão pessoalmente absolvidos pelos transtornos que causaram? Mesmo que a queda não tenha sido diretamente causada por Lula, de modo indireto é atingido. Por maiores que fossem os méritos conquistados por Dilma em sua biografia pessoal, nunca os havia exposto ao julgamento popular. É nas disputas eleitorais que os méritos dos candidatos a governante são expostos e julgados publicamente, pelo que realizaram ou pelos compromissos que assumem.

No caso de Dilma, seu ingresso no poder se deu por méritos alheios, como nas monarquias, em que os filhos dos reis herdam o poder por méritos dos antepassados, tendo de provar no exercício do cargo a recomendação recebida. Recuperar a popularidade perdida, de agora em diante, é o maior desafio e a principal meta de Dilma. Nos três anos que lhe restam, julga ser possível reconquistá-la. Tem recorrido a seu patrono em busca de orientação, ou de apoio, ou de captação indireta da popularidade que ele teve. Procura se aproximar de Lula como se ele pudesse contribuir de algum modo.

Novamente neste ponto vale a pena recorrer à História. No passado, praticamente não há exemplos de governantes que tenham conseguido recuperar popularidade depois de cometerem erros ou causarem graves frustrações a seus governados. Na Inglaterra do século 17 dois reis foram decapitados por desagradarem aos súditos. Napoleão jamais conseguiu recuperar o poder depois de sua última derrota militar. Quase todos os presidentes norte-americanos e brasileiros terminaram seus mandatos com menor popularidade do que quando começaram. Nixon e Collor, entre outros, são exemplos fortes de reprovação popular em final de mandato.

A queda de popularidade dos que foram eleitos por méritos alheios também tem atingido a imagem dos respectivos patronos, como foi o caso de Garcez, Pitta, Fleury e outros. Ser eleito sem méritos próprios envolve o dilema entre manter-se próximo e, até certo ponto, dependente dos méritos alheios, ou afastar-se para adquirir autonomia. Dilma optou por não romper. Outros romperam. Nenhuma dessas alternativas é vantajosa, por ficarem situadas entre a submissão e a ingratidão. Rompendo ou não, seus méritos ou deméritos serão sempre creditados ou debitados a quem patrocinou sua escolha.

O exercício do poder é solitário e trágico. Ninguém pode governar impunemente! – bradava Saint-Just ao exigir a morte de Luís XVI. Antes dele, Hobbes já havia dito que o soberano não tem o direito de renunciar. Todo governante está sujeito ao julgamento público. A popularidade é sua proteção. Vargas matou-se para não perder a popularidade ameaçada, do mesmo modo que foi trágico o destino de quase todos os grandes ditadores que atuaram no cenário político do século 20. Além de solitário, o exercício do poder oscila entre o risco de reprovação e a permanente cobrança. Depois da perda, recuperar toda a popularidade conquistada pelo voto é tarefa difícil. 

Mesmo que o atual governo consiga repor a economia do País em níveis exuberantes, a ponto de fazer a opinião pública esquecer seus desmandos, algo ficará pesando na imagem de Dilma e de quem a indicou. A comédia do aprendiz de feiticeiro sempre termina mal, porque o efeito do desastre recai também sobre o próprio feiticeiro.

*Carlos Matheus foi diretor do Instituto Gallup e professor titular de ética e filosofia política da PUC-SP. E-mail: cemmatheus@uol.com.br

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