Populismo e economia

Subverter regras básicas do mercado por meio de medidas coercitivas não dá certo

Luis Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2017 | 03h00

No começo dos anos 90, os economistas Rudiger Dornbusch e Sebastian Edwards editaram um livro sobre o populismo na América Latina (The Macroeconomics of Populism in Latin America, 1991). O propósito era explorar a recorrência de políticas econômicas demagógicas cujos resultados foram recessão e forte crescimento dos preços, penalizando as parcelas da população que se buscava favorecer.

O populismo está de volta, desta vez em escala global. O presidente Donald Trump ameaça impor barreiras tarifárias. A intenção é proteger as empresas americanas da concorrência. O efeito será o inverso: aumentará os custos dos consumidores e da indústria. O senso comum é enganoso. As analogias dos dilemas macroeconômicos com as decisões quotidianas raramente têm sentido. Ainda recentemente, o ex-presidente Lula foi vítima, mais uma vez, de ideias erradas. Em discurso inflamado, voltou a defender o uso de reservas internacionais para combater a recessão. Esquece Lula que as reservas, ao contrário do que o nome sugere, são apenas ativos do Banco Central, aos quais corresponde uma dívida, e que investi-las no Brasil implicaria uma fortíssima valorização cambial, dizimando nossa indústria, além do aumento da dívida pública. Simplesmente não funciona.

Nem só malucos fazem maluquices. Há pouco, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) impediu que a União exercesse seu direito de bloquear as garantias do Estado do Rio de Janeiro. Pode até parecer razoável, mas isso vai restringir a capacidade do Rio de Janeiro de levantar recursos no futuro, já que não se pode mais contar com as garantias oferecidas. O senso comum também é um mau conselheiro na questão do emprego. Criaram-se no Brasil dificuldades para a demissão de trabalhadores. Alguém pensou que onerando as demissões seria possível preservar o nível de emprego. Demitir custa caro. Pois bem. As demissões de fato caíram. Passaram de 20,51 milhões, em 2014, para 15,54 milhões, no ano passado. Isso preservou o emprego? Não, porque as contratações caíram muito mais. Tivemos 20,7 milhões de admissões em 2014 e apenas 14,2 milhões em 2016, queda de 31%. O saldo líquido neste período foi a perda de quase 3 milhões de postos de trabalho. Em comum, essas ideias carregam a noção de que é possível subverter regras básicas do mercado por meio de intervenções e medidas coercitivas. Não dá certo e o resultado é o inverso do que se pretende.

Realidade. Desde meados do ano passado, o Brasil atravessa um período de ajuste de contas com a realidade. A fatura é muito alta e os resultados positivos tardam para chegar. Teremos ainda em 2017 uma queda da renda per capita. Será o quarto ano consecutivo. Isso significa que o ambiente econômico durante a campanha eleitoral de 2018 será ainda marcado por uma alta taxa de desemprego, o que é campo fértil para teses populistas esdrúxulas. Por que não um aumento de 50% no salário mínimo? Por que não controlar o preço da cesta básica? Por que não assegurar transporte gratuito para todos? A lista de estultices é interminável.

O governo tem uma agenda de reformas que aponta na direção correta. A economia está melhorando, mas é preciso que a recuperação seja mais rápida. Duas medidas poderão contribuir para isso: a aceleração do programa de concessões de obras de infraestrutura e o corte, rápido, das taxas de juros.

2017 pode parecer um ano morno, mas é decisivo. Se os eleitores não perceberem que fazer a coisa certa significa aumento da renda e do emprego, estarão tentados a apostar nas ideias erradas em 2018. Todos perderemos com isso. 

*Economista, foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e da FGV-SP. E-mail: luiseduardoassis@gmail.com

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