Por que a carne brasileira tem conquistado o mundo

Ela tem boa qualidade, é comercialmente competitiva e produzida de forma sustentável

Luiz Cláudio Paranhos, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2016 | 03h02

Muito se falou nas últimas semanas da abertura do mercado dos EUA para a carne bovina brasileira, uma luta de mais de 15 anos encerrada com a assinatura de um acordo entre as duas nações no Comitê Consultivo Agrícola Brasil-EUA, em Washington. Tal fato reverberou também pelas bandas de cá e, em Brasília, o ministro Blairo Maggi e o presidente Michel Temer receberam a embaixadora dos EUA para uma protocolar troca das cartas de reconhecimento de equivalência dos controles oficiais de carne bovina entre os dois países. Daqui para a frente, tanto o Brasil poderá vender o produto aos norte-americanos quanto os EUA para o mercado brasileiro.

Na prática, significa importante reconhecimento de que temos carne bovina de boa qualidade, competitiva comercialmente e produzida de forma sustentável. É uma espécie de chancela de um mercado altamente exigente, principalmente em controle sanitário. Agora podemos almejar o acesso a outros países de grande consumo, como Japão, Coreia do Sul, Canadá e México, que de certa forma usam os EUA como referência.

Mas esta condição de protagonista no mercado mundial de carne bovina não veio de uma hora para outra nem foi nada fácil. Avanços altamente significativos em diversas áreas do sistema de produção ao longo dos últimos anos permitiram que nossa pecuária chegasse aonde chegou.

O controle sanitário do rebanho sempre foi nosso “calcanhar de Aquiles”, uma de nossas maiores limitações comerciais, e nesse ponto evoluímos muito. Em 2000 tínhamos poucas regiões com o status de livres de febre aftosa com vacinação, limitadas a Paraná, São Paulo e partes de Minas, Mato Grosso e Goiás. O País investiu em campanhas para vacinação e em controle e fiscalização do trânsito de animais. Mesmo com alguns percalços, de lá para cá chegamos a 2016 com o País inteiro praticamente livre, já que apenas Amapá, Roraima e Amazonas ainda não conseguiram esse status e têm apenas 0,94% do nosso rebanho. Precisávamos romper o obstáculo do risco sanitário e com muito suor e vacina parece que conseguimos. Fechamos o balanço de 2015 com exportações de 1,078 milhão de toneladas de carne bovina in natura, ante 188 mil de 2000, ou seja, aumentamos mais de 5,7 vezes nosso volume exportado desse produto, que tem maior valor agregado. Um superávit na balança comercial que saiu de US$ 857 milhões para mais de US$ 7 bilhões nesse período.

Mas para ganhar o mundo não bastava o controle sanitário do rebanho. Precisávamos de qualidade e de escala. Era fundamental mostrar capacidade de responder às oportunidades ditadas pela crescente demanda por alimentos, impulsionada principalmente pelo aumento de renda dos países emergentes e em desenvolvimento.

As entidades do setor vêm atuando de forma cada vez mais articulada, com ações voltadas para o fortalecimento da cadeia produtiva e ações conjuntas para a abertura de mercados e promoção da carne brasileira nos países de maior potencial. A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), por exemplo, contribui há mais de 84 anos para melhorar a produtividade da pecuária do País, respondendo pelo registro, melhoramento genético e promoção das raças zebuínas. Importante destacar que cerca de 80% do nosso rebanho comercial tem forte influência do sangue desses animais de origem indiana.

Conforme trabalho apresentado pelo dr. Geraldo Martha, coordenador do programa de pesquisa da Embrapa nos EUA (Embrapa-Labex-USA), a pecuária de corte brasileira foi das atividades rurais que mais evoluíram quando se avalia a produtividade da terra no período 1950-2015. Para cada arroba produzida por hectare em 1950, no mesmo espaço e no mesmo tempo conseguimos produzir cinco vezes mais hoje. Melhoria na qualidade das pastagens, aumento da taxa de lotação e forte evolução genética explicam esses maravilhosos ganhos de produtividade. E segundo o mesmo pesquisador, a genética isoladamente é responsável por 38% dessa evolução, daí a grande importância da seleção dos animais zebuínos.

E esse é exatamente um dos principais focos da ABCZ, em que mais de cem profissionais de campo, zootecnistas, agrônomos e veterinários realizam o trabalho de vistoria, registro e avaliação genética do rebanho zebuíno puro de origem. Fazem mais de 13 mil visitas a propriedades rurais todos os anos, conferindo e selecionando os melhores indivíduos, orientando manejos, mensurando e pesando gerações de animais que se transformarão em reprodutores e matrizes de genética superior. São mais de 600 mil animais registrados por ano e centenas de milhares de pesagens e mensurações incorporadas a um gigantesco banco de dados que forma o PMGZ, programa de melhoramento genético de zebuínos. Esse programa se tornou uma das melhores e mais importantes ferramentas de seleção genética de que o mercado dispõe, com uma base de dados de impressionantes, 12,6 milhões de animais avaliados, a maior do mundo.

Ao mesmo tempo, a articulação permanente com as demais entidades da cadeia produtiva e as instituições de ensino e pesquisa (Embrapa, Cepea, Fazu) desenvolve uma série de projetos com o mesmo propósito, de produzir cada vez mais um produto melhor, em menos tempo, consumindo menos recursos.

O Brasil já tem um alto consumo per capita, portanto, todo o ganho de produtividade que conseguirmos poderá ser direcionado para atender à crescente demanda internacional. Podemos, em uma ou duas décadas, com as tecnologias já em uso nas propriedades mais produtivas, mais que triplicar nossas exportações. O setor pode gerar um superávit anual de mais de US$ 20 bilhões. A pecuária zebuína, moderna, competitiva e sustentável, será um dos principais setores da nossa economia, gerando mais renda para os produtores e novas oportunidades de emprego e renda para milhões de brasileiros.

Esta é a pecuária que queremos e buscamos: competitiva, moderna e sustentável.

*Luiz Cláudio Paranhos é presidente da ABCZ

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