Por que João ainda encanta?

"Santo subito" - exigia a multidão durante os funerais de Karol Wojtyla, em abril de 2005. Vox populi, vox Dei - responderam os prelados católicos. Preparem-se, prezados leitores, pois vem aí o papa santo! João Paulo II será beatificado neste domingo, o último estágio antes da canonização oficial. É intrigante entender o que fez desse homem alguém tão encantador. Seis anos após a sua morte, como consegue continuar mobilizando multidões? Qual o conteúdo mágico de suas mensagens? Talvez esse papa exprimisse a esperança de um tempo. Já escreveram que ele seria o 13.º apóstolo. O apóstolo do novo mundo.

Hugo Studart, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Na hierarquia das nações, um papa é só um sacerdote, o chefe dos católicos, religião praticada por 17% da população mundial. Manda de fato em apenas uns poucos quarteirões da cidade de Roma - o Vaticano - e em alguns milhares de sacerdotes. Contudo, talvez pelo que pregou ou por conduta pessoal, a verdade é que não houve na tumultuada transição do século 20 para o terceiro milênio nenhum outro líder político ou religioso de quem emanasse tanta autoridade moral. Ele foi, decerto, um dos gigantes do cenário político mundial, como Winston Churchill e Konrad Adenauer, talvez o último apóstolo com visões amplas e princípios universais a apontar para um novo mundo - daquela estirpe que gerou Gandhi e Martin Luther King.

Por onde passava, governantes paravam para recebê-lo e multidões corriam para aclamá-lo. Reunia legiões que ultrapassam, com frequência, 1 milhão de pessoas. Mais de 200 milhões foram às ruas aplaudi-lo. Antes dele, somente três homens haviam mobilizado multidões fora da terra natal: Alexandre da Macedônia, Júlio César e John Kennedy. Em seu pontificado, pronunciou 2.357 discursos no exterior, fez 102 viagens, levou sua pregação a 129 nações, visitou 620 cidades. O recordista anterior era o papa Paulo VI, com 12 viagens. Somente o apóstolo Paulo de Tarso, no início do cristianismo, havia ousado algo semelhante, ao peregrinar por todo o Império Romano levando a sua mensagem.

Apenas dois grandes países, China e Rússia, não foram visitados por ele. Ao não conseguir autorização para entrar na China, pregou para poucos nas Ilhas Fiji e Seychelles. Quando comprovou as injustiças sociais na América Latina, disse que "a dívida externa de um país não poderá nunca ser paga à custa da fome e da miséria de seu povo". E daí? Na prática, criou um impasse moral que acabou levando organismos como o FMI a rever seus conceitos.

Qualquer que seja o prisma pelo qual se olhe Karol Wojtyla, ainda que se discorde de suas ideias, há que admitir que ele foi um dos titãs da humanidade. Mas, afinal, o que ele dizia de marcante? Coisas simples, nada além da pregação normal do Evangelho. Geralmente falava de justiça social, com ênfase na ideia de solidariedade entre os povos e fraternidade entre os homens. As multidões costumavam ficar estupefatas quando esse homem vestido de branco acenava para um mundo melhor com a mais absoluta convicção.

André Frossard, ex-dirigente do Partido Comunista Francês, certa vez observou que esse papa vindo de Cracóvia passara diretamente para a Palestina, pois dizia palavras que escapavam ao abismo do tempo, como se fosse o 13.º apóstolo. "Ele não apenas soube falar aos católicos, mas também se dirigiu a todos os cristãos", explica Georges Suffert, autor de Tu És Pedro, livro sobre a história dos papas. "Ele inventou uma linguagem acessível à imensa maioria dos viventes. Foi como se a maioria tivesse aceitado, tacitamente, que esse papa exprimia as esperanças comuns dos homens do seu tempo".

"Num palco mundial dominado por profundas divisões econômicas, nacionais e religiosas, o papa destacou-se como o único porta-voz universal dos valores universais", escreve o vaticanista Marco Politi. "Ele ofereceu um evangelho de salvação e de esperança diante dos novos ídolos - egoísmo tribal, nacionalismo exacerbado, lucro sem preocupação com a vida humana".

João Paulo II assumiu o Vaticano numa das piores crises da História. Havia um cisma branco quase consolidado: à esquerda, a Teologia da Libertação, tentando enxertar no Evangelho a revolução socialista; à direita, o clero tradicionalista, que se recusava a acatar as reformas do Concílio Vaticano II. E um rebanho em fuga. Qual foi a estratégia de João Paulo II?

Primeiro, excomungou a direita. Depois, amordaçou a esquerda. Aposentou bispos e esquartejou prelazias progressistas, como a de São Paulo. Impôs rígida disciplina às hostes canônicas e ceifou a democracia interna. Por fim, reafirmou os valores mais conservadores, como o celibato sacerdotal e a família mononuclear. Condenou o aborto, a eutanásia, a união entre homossexuais e até os preservativos. Quanto às ovelhas, mandou deixar ir as desgarradas. Contudo, mandou que se abrigassem os divorciados e os filhos das relações pós-modernas. Deixou o cetro de uma Igreja ainda em crise moral profunda. Mas em todo o mundo os templos voltaram a ficar cheios.

Um de seus traços marcantes é que esse homem jamais foi um eremita encastelado, frágil e ascético, mas forjou sua personalidade e posições políticas nas mais duras experiências da vida. Foi soldado da resistência ao nazismo e ator na clandestinidade. Operário, quebrava pedras para comer. Seus biógrafos o poupam da divulgação de duas informações: se ceifou vidas e se provou da carne. Tudo indica, porém, que, até os 24 anos, tenha sido um soldado, um ator e um operário como qualquer outro de seu tempo. Depois virou sacerdote. Agora caminha para ser um santo popular, o papa santo!

O que diria João sobre essa beatificação? "Domine, non sum dignus" (Senhor, eu não sou digno), costumava repetir.

JORNALISTA E HISTORIADOR

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