Por que, mesmo estando certo, Trump está errado

Ainda que tenha razão em alguma reclamação contra a imprensa, erra ao tentar amordaçá-la

*Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

02 Março 2017 | 03h15

Na sexta-feira, dia 24 de fevereiro, a Casa Branca excluiu jornalistas do jornal The New York Times, da rede CNN, do Los Angeles Times e de outros dois veículos da coletiva (briefing) com o porta-voz Sean Spicer. No lugar dos barrados, admitiu os blogs governistas de lá, como o ultradireitista Breitbart. Não por acaso, horas antes do veto Donald Trump hostilizara mais uma vez o melhor setor da imprensa americana, o qual ele vem chamando de “mídia das falsas notícias”.

“Nada parecido com isso aconteceu na Casa Branca ao longo da nossa longa história de cobertura”, registrou o editor executivo do Times, Dean Baquet. Outros jornalistas decidiram boicotar o briefing. Nada disso, porém, mudou a determinação de Trump. Ele escolheu a imprensa livre como seu primeiro alvo bélico. Os imigrantes também sofrem investidas agressivas e o Poder Judiciário tem sido chamuscado em doses menos letais, mas é contra o jornalismo que Trump move a sua primeira “guerra”. O termo é dele. Trump declara-se em “guerra” contra a mídia.

Outras guerras virão, mas essa é a primeira. O presidente tem plena consciência de que essa guerra tinha de ser a primeira. Para pôr em prática seus planos de expansão e de supremacia militar ativa – “precisamos começar a vencer guerras outra vez”, disse ele há três dias, ao justificar o aumento dos gastos com as Forças Armadas – ele sabe que deve fazer uma vítima prévia: a instituição democrática encarregada de fazer a verificação diária da verdade factual. Essa instituição é a imprensa. Antes de começar a jogar bombas de verdade no país dos outros, Donald Trump precisa quebrar as redações independentes em seu próprio país. Para isso lança bombas retóricas e, ocasionalmente, adota medidas duras, como proibir a presença de repórteres críticos nas coletivas da Casa Branca.

Nisso, segue à risca o receituário de consolidação do um poder autoritário com vocações totalitárias. Primeiro, controla à força a opinião pública interna; depois, vai “conquistar” terras alheias. As agressões que ele vem disparando contra jornalistas americanos constituem agressões contra toda a comunidade internacional comprometida com os valores dos direitos humanos, da liberdade e da democracia. A cada insulto que Trump dirige aos repórteres, o populista que comanda a maior potência nuclear do planeta deixa ver por que é uma ameaça à paz mundial.

Os nexos entre uma coisa (desrespeitar os jornais no âmbito doméstico) e a outra (intimidar militarmente outras nações) são mais diretos do que imaginamos. Não se faz uma guerra de larga escala sem antes fabricar uma mentira alarmante. Refresquemos a memória. Não fosse a falsificação habilmente construída pela rede de espionagem a serviço do então presidente George W. Bush, a de que Saddam Hussein teria sob seu comando uma fábrica descomunal de armas de destruição em massa, a invasão do Iraque não teria sido realizada.

A imprensa teve parte nisso, infelizmente. Alguns dos melhores jornais do mundo, como o New York Times, deram curso à versão de que havia, de fato, um arsenal de armas químicas no Iraque. Sem querer, esses jornais ajudaram a inclinar a opinião pública a favor do plano de Bush, que contava com o apoio de Tony Blair.

Quando se descobriu que não havia arma química nenhuma, era tarde. No dia 26 de maio de 2004, um editorial do Times reconheceu o erro e se desculpou, mas o estrago já se tinha consumado. A notícia falsa do arsenal de destruição em massa já tinha produzido efeitos, não havia mais como voltar atrás.

O que nos resta, agora, é aprender com o passado recente. Aquela guerra inútil e desastrada só se tornou viável porque o poder deu conta de fabricar uma história fantasiosa sobre o inimigo e porque, depois, a imprensa embarcou na mentira. A instituição democrática de verificação da verdade falhou. Com chantagens emocionais sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, com dossiês forjados que tinham um gostinho de furo jornalístico, o governo Bush conseguiu confundir o senso crítico das redações independentes. Agora, Trump quer reeditar o feito. Ele não quer cooptar as redações. Contenta-se em dobrá-las na base do grito e da intimidação. No caso de Bush, o resultado foi o sacrifício de vidas humanas e de divisas, além do fortalecimento do terrorismo que se reivindica do Islã. No caso de Trump, o resultado ainda é uma incógnita.

Antes se dizia que quando uma guerra começa a primeira vítima é a verdade. A frase é comumente atribuída ao político americano Hiram Johnson, que foi governador da Califórnia e senador, mas há outros autores no páreo. Não faz diferença. O que faz diferença é que, num país em guerra, governantes, cidadãos e também a imprensa se sentem autorizados a mentir para ajudar suas tropas a derrotar os inimigos, e isso é sempre ruim.

Hoje a relação entre guerra e mentira é um pouco mais complexa. A verdade não é meramente a primeira vítima da guerra. Ao contrário, a paz é que pode ser a primeira vítima da morte da verdade, ou, em termos menos imprecisos, da morte da capacidade que uma democracia pode ter de fazer a verificação diária da verdade. Um governo interessado em promover uma guerra – ou em fazer da guerra o marketing de si mesmo – precisa, antes, anestesiar, seduzir ou nocautear a imprensa.

É tudo o que Trump quer. Para se justificar ele diz que os jornais mentem. Pode até ser que mintam, às vezes mais, às vezes menos, mas o poder mente muito mais e sem imprensa mentirá sem limites. Por isso, para o cidadão é melhor uma imprensa que erre contra do que uma que acerte a favor. A frase parece um disparate, mas procede. Mesmo que tenha razão em uma ou outra reclamação que faça da imprensa, Trump está errado, tragicamente errado, ao tentar amordaçá-la. Nada de bom virá dessa primeira guerra que ele resolveu travar.

*Jornalista, é professor da ECA-USP

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