Por que só agora?

Ao mesmo tempo que surgem novos e importantes elementos sobre o poder financeiro do Primeiro Comando na Capital (PCC) e suas ramificações em países vizinhos produtores de drogas e que continua a escalada da violência na Grande São Paulo, o governo do Estado exibe um excesso de confiança na capacidade de enfrentar o problema, que contrasta com a realidade e, por isso, não contribui para sua solução.

O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2012 | 02h09

Dados levantados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que nos últimos seis anos quase triplicou o número de pessoas ligadas àquela organização criminosa que fizeram movimentações de recursos para as quais não tinham capacidade econômico-financeira. Entre novembro de 2005 e novembro de 2006 - ano em que o PCC promoveu uma onda de ataques a policiais ainda maior que a atual e rebeliões em todo o sistema penitenciário - o Coaf identificou 1.485 pessoas que tinham relação direta ou indireta com as operações.

De lá para cá esse número subiu para cerca de 4 mil, de acordo com 60 relatórios já prontos sobre as movimentações financeiras do PCC. Eles mostram a centralização de depósitos em contas bancárias de São Paulo, concentradas na capital e em cidades que abrigam grandes penitenciárias. Como o Coaf fará parte da Agência Integrada de Inteligência, criada no âmbito da parceria acertada pelos governos federal e estadual para combater o crime organizado, essas informações poderão finalmente ser utilizadas na luta contra o PCC.

Algumas perguntas se impõem. Por que só agora se criou tal Agência? Como explicar que um órgão de inteligência financeira vinculado ao Ministério da Fazenda, tendo comprovado ao longo desses anos o crescimento e fortalecimento do PCC, não passou tais dados ao governo paulista, para ajudá-lo a combater uma organização criminosa em boa parte responsável pelos índices de criminalidade, que, embora tenham se reduzido nos últimos anos, continuam altos no Estado? Terá sido pelo fato de São Paulo ser governado por um partido de oposição? Se não foi por isso, por qual outra razão? O governo federal deve aos paulistas respostas a essas perguntas.

Tem mais. Relatório do Sistema Brasileiro de Inteligência (SisBin) mostra que desde 2008 o PCC mantém acordos com traficantes de drogas da Bolívia e do Paraguai e já domina boa parte do mercado brasileiro de cocaína e maconha. Para aumentar seu rendimento, ele eliminou intermediários e hoje domina a chamada "rota caipira"da droga, que entra pelo Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul para abastecer o interior paulista, a capital e, eventualmente, o Rio de Janeiro. Essas informações foram repassadas ao governo paulista, ou só o serão agora e, nesse caso, por quê?

Os serviços de inteligência das Polícias Militar e Civil e do sistema penitenciário, que tem sob sua guarda as lideranças do PCC, falharam ao não detectar o crescimento do PCC, depois dos embates de 2006, mas agora está claro que esse erro poderia ter sido corrigido se o governo federal tivesse repassado as informações que possuía a respeito.

Como se não bastasse tudo isso, o combate ao PCC e à onda de violência por ele desencadeada há mais de um mês é prejudicado também por uma avaliação otimista da situação por parte das autoridades estaduais, desmentida a cada dia pelas estatísticas sobre a criminalidade. No domingo, o governador Geraldo Alckmin, tentando transmitir a impressão de que a situação da segurança pública está sob controle, disse que São Paulo tem "a melhor e maior polícia do Brasil, com 135 mil policiais extremamente bem treinados, além de alta tecnologia". Acrescentou que a polícia já venceu o crime organizado no passado e vai vencê-lo novamente.

É o que todos esperam. Mas para isso, além das preciosas informações dos órgãos federais sobre o real tamanho do PCC, que finalmente lhe serão transmitidas, é essencial que o governo estadual abra os olhos para a dura realidade - só de sábado para domingo, quando Alckmin fez aquela avaliação, 17 pessoas foram mortas. Admitir a gravidade e o tamanho do problema é dar o primeiro passo para poder resolvê-lo.

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