Por uma ética planetária

Os fatos e os acontecimentos que se têm desencadeado nos últimos anos dentro de nossas fronteiras têm nos levado a estudar melhor as hoje pouco lembradas ciências da Ética, da moral e da Bioética.Muitos falam delas em palanques e na mídia visual e escrita, mas poucos nos explicam seu significado, sobretudo se empregadas na melhoria e orientação de nossa convivência coletiva, no comportamento dos governos, de nossos políticos e de nosso povo em relação ao restante do universo neste terceiro milênio.Pode-se definir Ética como um conjunto de normas que regulamentam o comportamento de um grupo particular de pessoas, como, por exemplo, médicos, advogados, psicólogos, odontólogos, etc., e até políticos...É normal que esses grupos tenham o seu próprio código de ética - que normatiza suas ações específicas -, e seu princípio fundamental é o respeito à dignidade e à sacralidade do ser humano como sujeito atuante e autônomo, e que nos permite entender e analisar a vida moral. Essas normas mantêm a sociedade aglutinada e, quando são afrouxadas, a comunidade e a Nação começam a se desintegrar, necessitando de reforço das leis. Ela é, portanto, um sistema de valores morais, direitos e deveres que nos levam a ter caráter, mas um caráter humano ideal em nossas ações e fins.A Antropologia demonstra que o homem é o único animal moral e que ele ou é ético ou não é homem. A Sociologia, por sua vez, demonstra que nenhum homem pode ser ético ou moral sozinho - ele precisa viver entre seus semelhantes para sê-lo. Sozinho, o homem pode não saber quem ele é nem para onde vai, nem ser responsável por seus atos.A moral, às vezes considerada como ciência, é também uma arte: a arte de viver e como viver como um ser humano, dentro dos bons costumes e usando bem sua liberdade. Mas, o que é mais importante, ela tem suas leis: as leis para a felicidade humana, promulgadas no Decálogo em apenas 10 linhas e nas 8 linhas das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. Projeto que Hans Küng, um dos maiores teólogos da atualidade, denominou de "Ética Mundial" ou Planetária, que tanto se faz necessária no caos moral em que vivemos!Nenhum tratado filosófico conseguiu superá-la, consagrando a moral como a estética e a ciência do espírito, que nos ensina o que fazer com a nossa vida, colocada em nós como um dom pelo criador, e que nos ensina a considerar o amor desinteressado ou ágape como fundamento de toda ética e do conhecimento da verdade como manifestação de uma lei natural e eterna.A imoralidade seria a violação dessas leis ou desses mandamentos, que nos revelam a verdadeira noção entre o bom e o mau e entre o certo e o errado, resultados de uma sabedoria infinita e, por isso, não arbitrários. Nem por isso a Ética e a moral deixam de se relacionar com as disciplinas humanas, tais como a Filosofia, a Psicologia, as neurociências, a Antropologia, a Sociologia, as Ciências Políticas, a Teologia, as religiões e a Bioética. A Bioética enfoca os assuntos éticos relacionados à vida, à morte, à saúde humana e à ética ambiental e ecológica e, como ciência epistemologicamente transdisciplinar e parte da Filosofia, permite ao homem resgatar sua dignidade de pessoa e sua qualidade de vida no planeta, dentro de uma ecobiologia em nível antropocósmico.A própria Casa Branca possui um comitê especializado de eticistas, bioeticistas, filósofos e neurocientistas, para aconselhá-los quanto aos dilemas éticos e morais enfrentados por aquele governo. Podemos catalogar mais de 200 institutos de Ética e Bioética funcionando naquele país, citando entre os mais proeminentes o Kennedy Institute of Ethics and Bioethics, financiado pelos milhões da família Kennedy; o Edmond Safra Institute of Ethics, da Harvard University, como doação do conhecido banqueiro, cuja lista de publicações e inumeráveis pesquisas cansariam os olhos dos internautas; o Hastings Institutes of Ethics e tantos outros, entre dezenas no Canadá e na Europa.Perguntem-nos agora quantas instituições desse porte existem em nosso meio. Preferimos não responder. Fugindo da burocracia intransponível dos órgãos governamentais, temos procurado universidades e faculdades privadas e outras instituições que disponham de espaço a fim de reunir numa instituição desse tipo uma poderosa equipe de pensadores especializados espalhados por nossas instituições de ensino - porém ainda isolados.Entre vários consultados, um importante banqueiro nos disse não estar interessado em assuntos sociais... E o governo está? Das várias faculdades recebemos apenas evasivas, sem resposta. Quer nos parecer que a ética e a moral são assuntos muito incômodos e mal vistos no Brasil. Quase todas as universidades as têm retirado de seu currículo, mesmo as de cursos superiores como Medicina, Direito, Engenharia e tantas outras, considerando-as apenas como curiosidades filosóficas ou filantrópicas.São consideradas como anátema, sobretudo por alguns políticos, bastando-nos observar o que tem resultado de suas soi-disant Comissões de Ética e de suas Comissões Parlamentares de Inquérito no julgamento da corrupção generalizada, já que não existe um referencial acadêmico ou obediência a tais disciplinas, consideradas imprescindíveis no resto do mundo.É triste constatar o que isso poderá representar no futuro para o Brasil se nos examinarmos hoje como uma biópsia de um mundo ético, moral e bioético em que vivemos: ou seremos éticos e morais neste milênio que se inicia ou não seremos nada! Raul Marino Jr., professor titular emérito de Neurocirurgia e professor livre-docente de Ética Médica e Bioética da Faculdade Medicina da USP, é autor dos livros A Religião do Cérebro e Bioética Global

Raul Marino Jr., O Estadao de S.Paulo

08 de abril de 2009 | 00h00

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