Prédios com nomes de outro mundo

Escrevo para compartilhar com os leitores a percepção de fato que me causou certa perplexidade e para o qual estou à procura de explicações. Quem sabe alguém me ajudará a encontrá-las.

ROBERTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2010 | 00h00

Vamos ao fato. Há tempos percebia que novos edifícios residenciais anunciados neste jornal e na Folha de S.Paulo tinham grande parcela de nomes estrangeiros. Para conferir, recentemente busquei ajuda para pesquisar esses dois jornais em dois fins de semana do mês passado e vi confirmada essa percepção. Descontadas as repetições de anúncios, e admitida alguma arbitrariedade na classificação de uns poucos, foram encontrados 24 edifícios com nomes em português e 40(!) com nomes estrangeiros, sendo 17 em inglês, 13 em francês, 8 em italiano, um em grego e outro em espanhol.

Assim, a diferença é grande e revela uma curiosa preferência por nomes estrangeiros. Vejamos alguns exemplos nessas três outras línguas em que se destacaram. Em inglês há Gardens, Michigan, Quality House, Choice, Upgrade e Riverside. Na sua tentativa de "delivery", o anúncio do Choice (Escolha) veio até com uma pergunta ligada ao nome. Assim, usando gíria na mesma língua, indaga a eventuais interessados: "What is cool for you?" (O que é muito bom para você?). Aliás, o uso de expressões em inglês contamina até nomes em português, com adendos do tipo "living club" e "condominium club".

Quanto aos prédios "franceses", há Bonjour!, Jardins de Provence, Maison La Frontière, Sur La Cité e Pinot Noir, entre outros. Este último oferece também um pacote de eletrodomésticos, mas meu interesse caiu quando notei a falta de um específico para resfriar vinhos.

Entre os "italianos", a lista mostra Attualitá, Ereditá, Toccata e Independenza, este último no Ipiranga. Pobre dom Pedro I. Alguém não entendeu bem o que gritou ao passar por lá. Ademais, soube que em italiano mesmo o certo seria Indipendenza, mas soaria pior no marketing.

Quanto aos que não abandonaram a língua pátria, destacarei Casa das Caldeiras (nome baseado num dos edifícios industriais que sobraram do Grupo Matarazzo), 106 Seridó, Mosaico e Aracê, neste caso incorporando o tupi. São nomes belíssimos e gostaria que essa prática pegasse. Em particular, por que não homenagear alguns grandes vultos da nossa História, que, felizmente, ainda existem, como Euclides da Cunha e Joaquim Nabuco, recentemente lembrados na passagem do centenário de sua morte?

Por certo o tema aqui abordado merece uma análise mais aprofundada, e para concluir apenas esboçar algumas questões que gostaria de ver bem respondidas. Entre as poucas para as quais eu mesmo tenho uma primeira resposta está a que questionaria se a grande presença de imigrantes e de seus descendentes em São Paulo não influenciaria essas escolhas de nomes. Tirando os italianos, e exceto pela influência cultural no sentido lato, tudo indica que não, pois nomes ingleses e franceses são dominantes e a presença de imigrantes dessas linhagens é muito pequena na cidade.

Quanto a saber se os anúncios consultados são mais voltados para o mercado de renda mais alta, esse parece ser o caso, pois é o alcançado de forma predominante pelos dois jornais citados. Em geral são apartamentos maiores e em áreas da cidade tidas como nobres ou da média para cima, mas há também exceções.

O mais interessante seria saber o porquê dessa preferência por denominações estrangeiras. Como economista, indagaria primeiro se a escolha é determinada apenas pelo lado da oferta. Ou seja, os arquitetos que fazem as plantas em algum momento escolhem um nome e, aí, caberia saber o que os orienta nessas escolhas, como influências culturais diversas, seus próprios sonhos residenciais ou mesmo incursões pela degustação de vinhos. Perto da Faap, por exemplo, existe um enorme e luxuoso prédio com o nome de Chateau Montigny. Teria sido a influência de um bordô?

O lado da demanda também pode influenciar marqueteiros a escolherem nomes de prédios, já conhecendo as preferências desse lado ou nele fazendo incursões mais recentes para analisar tendências. Como se sabe, no alcance de melhores resultados para um empreendimento, o marketing procura adequar a oferta, seja ela de prédios, alimentos in natura, manufaturas ou serviços, às preferências dos consumidores, para isso pesquisando-as e testando diferentes desenhos de produtos, inclusive suas marcas, que no caso incluem as de construtoras, incorporadoras, financiadores e o próprio nome do prédio.

Preocupo-me mais com esse lado da demanda porque, se for o principal determinante desses nomes estrangeiros, isso estaria a revelar uma certa insatisfação com o País e a cidade onde vivem seus compradores, que assim se refugiariam em edifícios cujos nomes lhes dariam alguma sensação de viver noutro e melhor mundo.

Paro por aqui, pois meu próprio edifício de conhecimentos não tem estrutura para seguir em frente. De qualquer forma, fica este registro, que talvez estimule reflexões dos próprios leitores. E, quem sabe, de estudantes de graduação ou pós-graduação, de seus professores e de pesquisadores, em particular nas áreas de arquitetura, marketing e psicologia, à procura de um tema para um trabalho de conclusão de curso, uma dissertação, uma tese ou mais um artigo.

Como disse um dos meus orientadores acadêmicos logo no início da minha carreira, um tema para essas finalidades é encontrado quando há uma ou mais perguntas sem resposta, ou quando se entende que quem a respondeu o fez de forma inadequada e que cabe ser reformulada. Há muitas perguntas e as poucas respostas que me arrisquei a esboçar estão aí para o contraditório. O tema é também factível empiricamente, pois há anúncios a levantar e muitos arquitetos, empreendedores, corretores e compradores a entrevistar.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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