Prefeitos na Serra e ministros no Cerrado

No ano que termina, falou-se muito em corrupção no Cerrado. Caíram ministros, bilhões de reais foram desviados dos cofres públicos. Nada mais pedagógico, para mim, do que a corrupção na Serra Fluminense. Em nosso pequeno mundo, foi possível examinar um caso com princípio, meio, fim e traços universais.

Fernando Gabeira, jornalista, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2011 | 03h07

Nele o dinheiro desviado não se destinava a abstratos números de hipotéticos cursos para supostos alunos de formação profissional em turismo ou esportes. As coisas começaram com uma tragédia natural: as chuvas de verão. Mas, percorrendo escombros, hospitais e necrotérios, analisando o processo de destruição, não se pode afirmar que ela foi apenas natural. Ocupações ilegais, encostas desprotegidas, rios entulhados, obras mal feitas, incompletas , natimortas no papel - tudo isso revelava também um perverso ciclo político-cultural.

No princípio, o conforto é dado pelos grandes números abstratos. Os governos anunciam milhões. Mas os entulhos não saem do lugar, ao longo dos meses. As pontes que partiram continuam as pontes que partiram: pqp. Durante todo o ano houve protestos em Teresópolis e Nova Friburgo. As pessoas compreenderam que, apesar de o dinheiro não ter vindo na proporção prometida, ainda assim não estava sendo usado. O resultado final dessa luta foi a queda dos prefeitos das duas cidades, ambos acusados de corrupção. Diante dos desabrigados, pessoas que perderam gente da família, era difícil representar a famosa cena federal: onde estão as provas? As provas, de certa forma, estavam nos seus olhares, no abandono a que foram relegados.

Com o tempo, o próprio Ministério Público, baseando-se no clamor da população, reuniu os indícios que bastavam para a degola. Aconteceu aqui, na Serra, o que acontece no Cerrado. Quando se sentem vítimas de um processo de corrupção, onde buscar seus representantes? Na Câmara? Ela é dominado pelo governo.

Nova Friburgo e Teresópolis chegaram ao seu objetivo por caminhos diferentes. Na primeira, o movimento concentrou-se em exigir uma CPI na Câmara Municipal. E percebeu claramente que isso não bastava, era preciso uma CPI independente do prefeito sob suspeição. Na segunda, o processo foi um pouco mais longe. Os próprios vereadores, acossados pelo povo, afastaram o prefeito para investigações, já sabendo que ele não voltaria. Felizmente, a Justiça Federal completou o processo em Friburgo. As investigações na Câmara prosseguem, com o prefeito afastado.

Foi um processo memorável, mas não se pode cantar vitória. Enquanto as duas cidades lutavam para derrubar prefeitos corruptos, o outono virou inverno e o inverno, primavera. A Serra Fluminense encontra-se fragilizada diante do verão que se aproxima. As obras essenciais não foram feitas e a energia da sociedade não pôde ser canalizada para fortalecer os mecanismos de prevenção. A chuva destruiu bairros inteiros, a política, no seu sinistro curso, manteve a população ocupada em, minimamente, se defender de picaretas executivos que, por sua vez, controlam picaretas legislativos.

Uma lição do nosso pequeno território serrano que talvez valha para a imensidão do Cerrado: eleitores têm mais força de pressão sobre vereadores do que sobre deputados. No debate sobre reforma política, a experiência de Teresópolis e Friburgo deve ser levada em conta na avaliação do voto distrital.

Cobri a sessão que criou a CPI em Friburgo e a que derrubou o prefeito de Teresópolis. Havia gente na plateia e na praça. Mas não eram apenas manifestantes pressionando políticos. Eram conhecidos, chamavam-se pelo nome, quando vaiavam alguém sabiam por que vaiavam e o político sabia por que estava sendo vaiado. Tanto para os acusados como para as vítimas não estavam em jogo números abstratos, mas casos reais de gente com mortos conhecidos, escombros localizados. E gente enriquecendo a olhos vistos.

Tudo isso se passou com uma relativa distância da imprensa. É diferente do Cerrado, onde os episódios se desenrolam diante dos refletores e os atores se esmeram na dramatização. No script da Serra não houve falas do tipo "sinto-me indestrutível" ou "morro, mas não jogo a toalha". É diferente o jornalista que apenas grava ou anota declarações do interlocutor que sabe o que você fez no verão passado.

O que ressalta também na tragédia serrana é a importância não só da participação social na luta contra a corrupção, mas sua articulação com instituições que funcionam, normalmente, como o Ministério Público, ou mesmo as que só pegam no tranco, como as Câmaras Municipais. Seria uma ilusão achar que o controle social resolve sozinho. Como também é uma ilusão contar apenas com fiscais quando a sociedade é indiferente. Entre esses dois polos, a iniciativa mais desejada é do próprio governo, ampliando e sofisticando os mecanismos de fiscalização. Se dependesse das cidades da Serra, as casas já estavam reconstruídas, as encostas, protegidas e as pontes, restauradas. Se os mecanismos oficiais fossem melhores, elas teriam sido poupadas desse longo calvário.

Caso as eleições municipais fossem este ano, as cidades da Serra teriam um comportamento singular diante do quadro mais amplo. Não há muito necessidade de discutir ficha limpa, nem espaço apenas para militantes profissionais. As pessoas já sabem, pelo menos, o que não querem: gastar o ano para remover políticos corruptos e só agora começar a remover as pedras que ameaçam rolar sobre sua cabeça. O que virá depois?

Há esperanças de que o comportamento na Serra, e em todos os outros lugares que despertaram, comece, no ano que vem, a influenciar as mudanças no Cerrado. É muito cedo para prever. A eleição de 2012 pode também reduzir-se a um fenômeno de cabos eleitorais e agências de propaganda, diante de uma sociedade indiferente e enojada dos políticos.

No caso da Serra Fluminense, pensar em escala anual é uma temeridade. A cada dia, sua agonia; a cada verão, sua corrupção.

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