Prestígio da polícia em jogo

A pronta reação da Secretaria da Segurança Pública à denúncia, feita por reportagem do Estado, sobre a existência – que já era investigada – de um esquema montado na Polícia Civil por policiais corruptos e membros da Corregedoria, que deles recebiam propina para lhes passar informações sobre investigações de que eram objeto, é um dado positivo. Mas é preciso ir além da elucidação desse caso e da exemplar punição dos culpados, porque a fragilidade do sistema de controle da polícia que ele revela é altamente preocupante e precisa ser inteiramente revisto.

O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2015 | 02h55

Uma das peças mais importantes do inquérito conduzido pelo Ministério Público Estadual (MPE), por meio do seu Grupo Especial de Controle Externo da Polícia (Gecep), sobre o caso são as imagens de um vídeo cuja análise mostra como promotores foram enganados por policiais civis para permitir a fuga de dois investigadores acusados de corrupção – Mario Capalbo e Raphael Schiavinatto, que trabalham na 3.ª Delegacia de Investigações Gerais (DIG).

Eles são suspeitos de exigir pagamento de propina de R$ 300 mil da dona de uma academia de ginástica. Ela procurou promotores do Gecep e, orientada por eles, gravou as conversas em que aqueles policiais tentavam achacá-la. Foi com base nisso que a Justiça decretou a prisão de ambos. Outro elemento importante das investigações do Gecep, que o levou a ligar os fatos e desvendar o esquema de corrupção envolvendo a Corregedoria, é o depoimento de um policial civil que resolveu dizer o que sabe.

Contou ele que o investigador Waldir Tabach, chefe dos investigadores da Corregedoria, arrecadava dinheiro de colegas suspeitos de atos de corrupção para pagar propina, de até R$ 50 mil por mês, a corregedores para informá-los sobre o andamento dos inquéritos do Gecep de que eram alvo e sobre as operações montadas pelos promotores para prendê-los. Um esquema cujo bom funcionamento aquele vídeo demonstrou.

A gravidade do fato de a corrupção ter chegado até a Corregedoria, justamente o órgão encarregado de elucidar e combater essa e outras práticas criminosas de maus policiais, é tão gritante que dispensa maiores comentários. Vale apenas observar que essa é uma tentativa de chegar ao crime perfeito, porque envolve uma das primeiras instâncias da qual depende o prosseguimento ou, como se pretendia, o arquivamento das investigações.

Isso certamente explica as providências que o secretário de Segurança, Alexandre de Moraes, que já acompanhava o caso, se apressou a anunciar após a publicação da reportagem. Um dia depois informou ter determinado o afastamento da cúpula da Corregedoria e de todos os policiais suspeitos de participar do esquema criminoso de propinas. Foram também instaurados inquéritos policiais contra eles. No total, foram 10 os afetados por essas medidas. E um novo corregedor foi nomeado, com a incumbência de trocar toda a equipe por pessoas de sua inteira confiança e abrir procedimentos administrativos sobre os fatos apresentados pelos promotores do Gecep.

É igualmente importante que o secretário Moraes amplie as investigações para determinar até onde a corrupção avançou. Se ela chegou à Corregedoria, é legítimo suspeitar que pode ter atingido outras áreas também importantes da polícia. Essa dúvida não deve durar, porque não é correto que uma minoria de maus policiais comprometa a reputação de toda a instituição.

O prestígio do aparelho policial – Polícias Militar e Civil – está em baixa, como atestou pesquisa de opinião. A maioria da população – 60% no caso da primeira e 55% no da segunda – disse experimentar em relação a elas mais temor do que confiança, ao contrário do que se deveria esperar. E ironicamente isso ocorre justamente no momento em que os dados oficiais mostram que foram feitos progressos significativos no combate à criminalidade nos últimos anos. Uma razão a mais para livrar as duas instituições dos que resolveram passar para o lado do crime.

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