Prever o futuro ou construí-lo?

Tentar prever o futuro parecer ser uma das características inatas dos seres humanos, principalmente em tempos de crise. No passado distante, a evidente vulnerabilidade dos nossos antepassados diante de catástrofes naturais os levava desesperadamente aos líderes religiosos, à procura de consolo e esperança no porvir. Na Bíblia os profetas têm um papel preponderante.

José Goldemberg, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2013 | 02h06

No auge da civilização grega, há 2.500 anos, ganharam grande evidência as profecias das pitonisas de Delfos. No Templo de Apolo as sacerdotisas faziam suas previsões em transes provocados por gases emitidos por fendas subterrâneas, situadas abaixo do templo. Frequentemente os vaticínios eram dúbios e confusos, mas interpretados pelos interessados de modo a confirmarem suas próprias convicções e expectativas.

Nos dias atuais, um exercício realizado frequentemente por algumas revistas científicas é também fazer previsões. As mais conhecidas são as da Scientific American, que há 167 anos publica trabalhos dos melhores cientistas em todos os campos do conhecimento. Isso dá à publicação certa credibilidade em prever o futuro, uma vez que, segundo seus editores, "um passado forte é uma base boa para olhar o futuro".

A revista acredita que suas "previsões" ou "projeções", baseadas em ciência, têm mais credibilidade que as visões das sacerdotisas de Delfos, que diziam muito mais sobre o destino dos homens, seus sucessos e fracassos, do que sobre desenvolvimento técnicos.

Isto é o que a Scientific American, em sua edição de janeiro, faz: formula uma série de previsões provocativas e as perspectivas de que se realizem. Exemplos dessas previsões: haverá carros voadores no futuro? Armas nucleares serão eliminadas? O aquecimento da Terra será evitado usando as tecnologias que conhecemos? A engenharia genética eliminará doenças? Poderemos transportar nossa civilização para outros planetas numa "arca", como fez Noé, conforme a Bíblia?

A revista não discute o futuro da energia, mas é possível fazer previsões do que vai acontecer nessa área para garantir a produção energética de que a humanidade vai necessitar nas próximas décadas. Em nível mundial, nos dias de hoje, combustíveis fósseis (carvão mineral, gás natural e petróleo) representam mais de 80% de toda a energia que consumimos. Essa é uma situação que não pode durar muito tempo. As reservas de combustíveis fósseis são grandes, mas finitas. Ao que sabemos, cerca da metade desses recursos já foi usada. A metade restante ainda vai durar muitos anos, mas está distribuída de forma geográfica muito irregular. Algumas regiões são muito bem dotadas, como o Oriente Médio, mas em geral a situação não é boa.

Além disso, a qualidade das reservas está mudando e novas tecnologias serão necessárias para usá-las. O desenvolvimento dessas tecnologias é uma direção em que podemos trabalhar para garantir o futuro. É o caso, por exemplo, do pré-sal no Brasil, para a produção de petróleo, ou do gás de xisto, que se tornou popular nos Estados Unidos.

Como em todos os novos desenvolvimentos, é difícil prever todas as complicações que deles podem surgir e o importante é mover-se com cautela para evitar desapontamentos e catástrofes. Gás de xisto parece hoje uma panaceia nos Estados Unidos, onde o seu custo caiu dramaticamente, mas é temerário acreditar que esse sucesso se repetirá em todos os países, inclusive no Brasil.

Em compensação, as regiões tropicais do mundo têm um recurso natural de que as mais frias não dispõem: cobertura florestal e áreas enormes onde a agricultura se pode expandir. A energia que pode ser retirada de produtos agrícolas, como a do álcool de cana-de-açúcar, entre outros, é de fato enorme, como mostra o programa de etanol brasileiro.

A quantidade total de combustíveis fósseis situada abaixo do solo que existe no mundo é difícil de estimar, mas está entre 0,5 trilhão e 2 trilhões de toneladas. Destas, consumimos hoje 10 bilhões de toneladas por ano. A expectativa de duração dessas reservas é, portanto, de 50 a 200 anos, na melhor das hipóteses. Em contraste, a quantidade de madeira e de produtos agrícolas que se encontram acima do solo - e que são renováveis - é de cerca de 1 trilhão de toneladas. E se renova sempre.

A verdade é que é mais fácil, hoje, usar os combustíveis fósseis do que produtos florestais, e a razão principal para tal é que desde o século 19 todo o desenvolvimento tecnológico foi orientado para otimizar a sua extração do subsolo e o seu uso. Isso não foi feito ainda para a utilização da energia das florestas ou dos produtos agrícolas, mas é uma das direções em que se pode trabalhar e construir o futuro sobre ela.

Os combustíveis fósseis que usamos atualmente também se originaram de florestas (e de vida marinha e matéria orgânica dos oceanos), as quais foram soterradas centenas de milhões de anos atrás. A natureza encarregou-se de processá-las de forma a darem origem a esses combustíveis. Há poucas dúvidas de que o trabalho científico de hoje nos permitirá repetir o que a natureza fez no passado.

Muito mais produtivo do que tentar prever o futuro é construí-lo a partir do que sabemos hoje, e não consultar oráculos como o de Delfos, cartomantes, gurus e profetas. É isso o que a experiência da Scientific American nos tenta dizer.

Além disso, governos e fundações apoiam e premiam os avanços que nos conduzam a um desenvolvimento sustentável que se baseie no uso de fontes renováveis de energia. Neste ano de 2013, a Fundação Zayed, de Abu Dabi, que foi criada pelo esclarecido Sheik Zayed para premiar desenvolvimentos nessa área, atribuiu o seu prêmio principal ao autor deste artigo pelos seus trabalhos científicos sobre etanol de cana-de-açúcar, o maior dos programas de energia renovável do mundo logo depois da hidreletricidade.

JOSÉ GOLDEMBERG É PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
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