Primeiro passo

A histórica reunião entre Donald Trump e Kim Jong-un foi o passo concreto mais promissor para a distensão

O Estado de S.Paulo

13 Junho 2018 | 03h00

O clima de hostilidade que marca a Península Coreana há 65 anos não será dissipado totalmente de uma hora para outra. No entanto, a histórica reunião entre o presidente americano, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, ocorrida na Ilha Sentosa, em Cingapura, foi o primeiro passo concreto, e o mais promissor até agora, para a distensão de uma das mais militarizadas e conflituosas regiões do mundo. Foi a primeira vez que os líderes em exercício dos Estados Unidos e da Coreia do Norte se reuniram pessoalmente.

“Só há dois homens que podem tomar decisões de tamanha importância (que levem à paz na Península Coreana). E estes dois homens estarão sentados na mesma sala”, disse Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, pouco antes do início da reunião.

Após o aguardado aperto de mãos, ocorrido às 9h05 de terça-feira (22h05 de segunda-feira no horário de Brasília), Kim Jong-un afirmou que o encontro era “um bom prelúdio para a paz”. Donald Trump concordou, dizendo ser “uma honra” participar das negociações para a completa desnuclearização da Península Coreana com Kim Jong-un, “um negociador digno, que negocia em nome de seu povo”.

Ao final da reunião, Donald Trump e Kim Jong-un assinaram uma declaração conjunta. No documento, os dois manifestaram “profunda e sincera” disposição para reconstruir as relações entre seus países de modo a levar à “construção de um regime de paz duradouro e robusto na Península Coreana”. Tal disposição, por si só, já representa um enorme salto qualitativo nas relações diplomáticas entre EUA e Coreia do Norte, marcadas por profunda animosidade desde o fim da 2.ª Guerra.

Além do estabelecimento de novas relações diplomáticas entre os dois países, Donald Trump e Kim Jong-un se comprometeram a “unir esforços para construir um regime de paz duradouro e estável na Península Coreana” e “recuperar os restos mortais de prisioneiros de guerra e desaparecidos em combate, incluindo o repatriamento imediato daqueles que já foram identificados”. Além disso, a Coreia do Norte se comprometeu a “trabalhar pela desnuclearização completa da Península Coreana”, reafirmando a Declaração de Panmunjon, de 27 de abril de 2018.

Embora não conste do documento divulgado ao final da cúpula de Cingapura, Donald Trump assumiu o compromisso de interromper os “jogos de guerra”, como ele se referiu aos exercícios militares que as Forças Armadas americanas realizam todos os anos em conjunto com as tropas da Coreia do Sul.

Evidentemente, as declarações dos dois líderes são gestos de boa vontade. Por ora, estão no campo das grandes diretrizes estratégicas para a região e, portanto, deverão ser seguidas de ações concretas tomadas por autoridades dos dois países para produzir os resultados esperados da cúpula. Donald Trump e Kim Jong-un assumiram o compromisso de realizar, “na data mais próxima possível”, negociações subsequentes, lideradas por Mike Pompeo, do lado americano, e “um funcionário relevante de alto escalão”, pela Coreia do Norte, “para implementar os resultados da cúpula”.

O governo da Coreia do Sul, interessado direto no sucesso das negociações com o vizinho do norte, celebrou o encontro. “O acordo de Sentosa de 12 de junho ficará registrado como um evento histórico que ajudou a derrubar o último legado que restava da guerra fria na Terra”, afirmou Moon Jae-in, presidente sul-coreano. Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China, maior aliado de Pyongyang, afirmou que seu país “celebra e dá seu apoio” ao encontro.

Embora um olhar de cautela se imponha dado o histórico das relações entre os EUA e a Coreia do Norte, a cúpula tem grande chance de produzir os resultados esperados porque os dois países parecem ter atingido seus objetivos imediatos. Para os EUA, interessa eliminar a maior ameaça à paz na região da Península Coreana. E à Coreia do Norte interessa ser reconhecida pela comunidade internacional e ver suspensas as pesadas sanções econômicas impostas ao país. Muito ainda há de ser feito, mas o primeiro passo foi dado.

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