Principal desafio de Dilma é político

Dilma Rousseff, certamente, terá de enfrentar importantes pontos da agenda econômica no início do seu governo: ajuste fiscal, valorização cambial, aumento do investimento público, principalmente em infraestrutura, alta taxa de juros, controle da inflação, redução da dívida pública, e assim por diante. Mas são problemas em relação aos quais existem estoques de saberes armazenados, técnicas e capacitações humanas disponíveis no âmbito das forças governistas, suficientes para enfrentá-los de forma adequada.

Aldo Fornazieri, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2010 | 00h00

Muitos temem o aumento do viés estatizante no governo Dilma. Um maior protagonismo do Estado na economia, hoje, não é bem um problema de escolha, mas de necessidade, em decorrência da crise de 2008. De qualquer forma, Dilma e os petistas aprenderam o caminho das pedras da economia e ninguém cometerá excessos a la Hugo Chávez. O governo Dilma não deverá ser mais estatizante do que o governo Lula.

O maior desafio de Dilma, nesses termos, situa-se no terreno político. As próprias reformas (tributária, política, previdenciária e trabalhista) dependem da capacidade de direção política. O primeiro ponto que Dilma terá de enfrentar consiste em fugir à regra dos governantes que chegam ao poder pela força alheia: o fracasso. Maquiavel e a História nos ensinaram que governantes que ascendem ao poder não pela força política própria, mas pela força de outros, tendem ao fracasso. Sem comparar personalidades, basta citar alguns exemplos recentes: Cristina Kirchner, Celso Pitta, Luiz Antônio Fleury Filho e George W. Bush. Todos eles venceram pela força política de predecessores e fracassaram em seu mandato ou em sua carreira.

Dilma terá de buscar a exceção. Tendo desenvolvido uma carreira gerencial e administrativa, é como se ela, agora, tivesse de constituir sua personalidade política. Ao vencer as eleições, já percorreu a metade desse caminho. A outra metade terá de percorrê-la no exercício da Presidência e, registre-se, essa será a parte mais difícil.

É preciso notar que existe uma diferença essencial entre ser um bom gerente e ser um bom líder político. Um bom gerente precisa saber coordenar processos e pessoas para atingir metas com eficácia. O principal requisito é que domine métodos e técnicas de gestão. A principal qualidade que se exige do líder político é a de saber comandar, dirigir pessoas, povos, multidões. Deve saber decidir de acordo com a variabilidade das coisas e dos tempos. Deve ser prudente a ponto de se antecipar aos problemas futuros e ousado para enfrentá-los. No âmbito das democracias, o líder político sempre lidará com conflitos. Terá êxito se souber agregar forças e satisfazer as maiorias. O bom líder político deve saber também escolher e valer-se de bons gerentes e administradores.

Há, contudo, a favor de Dilma alguns pontos importantes. Ela não é, simplesmente, uma herdeira parental ou pessoal de Lula. O presidente escolheu-a como candidata não por mero capricho personalista e autoritário. Lula precisava arbitrar a escolha do candidato para evitar que o PT se engalfinhasse numa luta interna fragmentadora, que poderia debilitar o partido na disputa. Dilma também não é uma outsider na política que simplesmente aproveitou a oportunidade que a sorte lhe oferecia. Sem planejar disputar a Presidência da República, mas treinada nos padrões organizativos da antiga esquerda, recebeu do presidente Lula a tarefa de disputar as eleições não como uma dotação do acaso ou da fortuna, mas como uma missão. Desempenhar bem as missões partidárias e políticas faz parte do ethos da formação militante de base em que Dilma se iniciou politicamente. Essa formação, nos momentos de desafios, constitui enorme vantagem em relação a políticos que desenvolveram carreiras meramente individuais.

Dilma foi eleita com a força da liderança política de Lula - liderança no sentido forte do termo - e este é o segundo problema político a ser revolvido. Se Lula fizer sombra a Dilma, estará minando o processo de construção de sua personalidade política como líder e presidente da República. Ao que tudo indica, esse não é um risco considerável, pois Lula é suficientemente sagaz e sabe que não pode projetar poder sobre sua sucessora. Lula deve socorrer Dilma somente em caso de última necessidade e Dilma deve bater à porta de Lula no limite estrito do necessário. Nestes termos, Dilma será a presidente real, legitimada democraticamente pelas urnas. A democracia brasileira atingiu um grau elevado de institucionalização, que não permite arranjos paralelos de comandos coletivos ou de unipresença de personalidades externas às funções constitucionais. Se Lula não foi bonapartista nem mesmo em seu próprio governo, por que haveria de sê-lo agora?

O terceiro problema diz respeito ao perfil do Ministério. O recomendável é que nenhum ministro tenha status de superministro. Tal circunstância, além de gerar disputas indesejadas entre ministros, enfraqueceria a figura da presidente. Para preservar sua autoridade Dilma deve decidir e dar a última palavra sobre as principais questões de governo.

Por fim, o maior risco político que Dilma deve evitar é o do impeachment. Presidentes com escassa força política própria são sempre mais suscetíveis de enfrentar investidas seja de forças da oposição, seja até mesmo de forças aliadas, desejosas de mais espaço e poder. Na crise do mensalão, a oposição, em grande medida, não propôs o impeachment do presidente Lula por causa do seu forte respaldo popular. Levando em conta que 44% dos eleitores votaram na oposição, Dilma deve fazer um esforço para ampliar o apoio da população. O esforço maior, contudo, deve consistir em impedir que o seu governo resvale para escândalos de corrupção. É neles que reside o maior potencial de erosão da legitimidade democrática.

DIRETOR ACADÊMICO DA FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO (FESPSP)

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